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segunda-feira, 28 de agosto de 2017

A beleza da alma de Maria - Resplandecente de Glória!

PARTE V - MARIA, RESPLANDECENTE DE GLÓRIA!

Depois deste crescimento maravilhoso veio o fim, a coroação. Quem poderia avaliar a santidade da Mãe de Deus, no último instante de sua vida?... 

Só Deus o sabe, porque somente Ele pode medir este abismo imensurável. 

Os teólogos dizem que, tendo morrido em um êxtase de amor divino, com um tal ardor, sob a ação extraordinária do Espírito Santo, aconteceu que, por mais altos que tivessem sido os graus de graça que tivera antes de Seu último suspiro, Ela duplicou o valor por Seu último ato, dizendo o último adeus a esta vida. 

A graça de que Maria foi enriquecida é proporcionada a quatro cousas incompreensíveis: 

1. A dignidade de Mãe de Deus, infinita em seu gênero. 

2. O amor com que Deus amou a Sua Mãe era o amor mais intenso que jamais tenha existido, depois do amor das três pessoas divinas entre si. 

3. O poder de Deus que, de certo modo, esgotou os seus tesouros na santificação de Maria, deu-Lhe tudo o que era razoável dar a uma criatura. 

4. Enfim, o mérito desta grande Rainha, não só igualado, mas muitas vezes ultrapassado por uma superabundância dos dons de Deus. 

Daí, se compararmos a graça de Maria com a graça de um homem, a de um anjo, e mesmo a de todos os homens e de todos os anjos juntos, teremos uma espécie de infinito entre os dois termos da comparação. 

As provas são supérfluas após o que dissemos a respeito da primeira graça dada à Virgem em Sua Conceição. Pode-se, pois, dizer que "a glória de Maria supera a glória de todos os anjos e de todos os santos juntamente, porque os Seus méritos estão acima dos méritos de todos os bem-aventurados". 

Estas são as palavras de São Pedro Damião (De Assumpt. B. Virg.) 

Sim, é aos seus méritos incomparáveis que Maria deve esta exaltação sem igual. Como Mãe de Deus, é verdade, Ela tem direito à coroa real: o Filho de Maria não podia deixar de conhecer os méritos de Sua Mãe; mas as pedras preciosas que ornam o Seu diadema e o Seu manto real, Ela as adquiriu por Seu zelo inimitável no serviço de Deus. 

"Assim como as Suas obras foram as mais perfeitas de todas, diz Santo Ildefonso, não é possível conceber a recompensa e a glória que Ela mereceu". (Sermo 2 de Assumpt.) 

"E se está fora de dúvida que Deus recompensa segundo o mérito, como no-lo declarou o apóstolo (Rom. 2,6), igualmente, diz Santo Tomás, a bem-aventurada Virgem, cujo mérito excede o de todos os homens e o de todos os anjos deve ter sido exaltada acima de todas as ordens celestes". (De sanct.) 

"Em uma palavra, diz S.Bernardo, calculai as graças singulares que Ela recebeu na terra, e tereis a medida da glória que Ela goza no céu". (Sermo 1 et 2 de Assumpt.) 

"Se o Salvador promete aos Seus apóstolos um trono magnifico no Céu, por O terem seguido (Mt. 19,28), e reserva uma grande recompensa à fidelidade no cumprimento dos seus menores deveres (Mt. 25,23), que testemunho de honra não dará Ele diante de toda a corte celestial à Sua Mãe, sempre fiel e tão constante?... Que trono não será por Ele ereto para esta Mãe amante que O seguiu e dEle tão ternamente cuidou aqui na terra, não O abandonou nunca, nem sequer no tempo de Sua morte, quando a ignomínia de Jesus recaía sobre Ela, que lhe dera a vida?..." (Jamar, op.cit.) 

Com que entusiasmo e transportes não deviam os anjos honrar aquela que o próprio Deus honra de um modo tão inefável?... 

E com que acentos não se unirá a Igreja da terra aos louvores dos anjos e da Igreja triunfante, para cantar a glória daquele a quem Deus revestiu de certo modo com a Sua própria glória?... 

Inauditas são também as Suas homenagens, só excedidas por aquelas que reivindica para Si a infinita majestade do Altíssimo. 

"Os bem-aventurados louvam a Deus em Maria, diz Dionísio, o cartucho, e louvam Maria Santíssima em Deus, que com tanto amor e munificência trata esta augusta Rainha". (De laud. B. Virg., lib. 4. c. 15) 

O profeta-rei anunciava os gloriosos destinos da bem-aventurada Virgem, mil anos antes que lhe fosse dado ver eles se realizarem. 

"A Rainha, diz ele, está à Vossa dextra, engalanada com manto de ouro, com variedade de adornos... Mas o principal ornamento da Filha do Rei vem, sobretudo de Sua beleza. Longas filas de virgens formam o Seu cortejo. É em nome dEla que serão apresentadas ao Senhor, e elas se dirigem ao Eterno, em transportes de alegria. Ó Rainha, possuireis uma posteridade inumerável... Vossos filhos serão os príncipes da terra e lembrar-se-ão de Vós em todas as gerações e os povos publicarão eternamente os Vossos louvores". 

Oh! sim, nós também, sobretudo nós, ó terna Mãe, associar-nos-emos aos coros angélicos para proclamar-Vos, Vós, resplandecente de glória, como éreis resplandecente de graças, pois a glória é o aperfeiçoamento da graça! 

Fazei que um dia nos envolva junto a vós um raio dessa glória, para completar e coroar o amor que Vos dedicamos desde agora, e que vos queríamos sempre dedicar.
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Excerto do livro Por que amo Maria, de Padre Júlio Maria, Missionário de Nossa Senhora do Santíssimo Sacramento (1945)

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

A beleza da alma de Maria - Qua Est Ista?

Madonna Colonna, de Rafael, c. 1508.
PARTE IV - QUA EST ISTA?

Que espetáculo não deverá ser no céu para os anjos, à vista desta criatura "cheia de graça" e aumentando ainda todos os dias esta plenitude inicial!... 

No seio de Seu êxtase eterno, deviam eles interromper um instante os seus concertos, e inclinar-se para a terra, exclamando, alegres: "Quae est ista?" 

Até então, toda criatura humana que entrava na existência era percebida pelos anjos como tendo a mancha original. Desta vez, porém, a criança que dorme neste berço parece subir do deserto; é única e isolada, e com respeito desviaram-se a carne e o sangue. A pequenina Imaculada é bem um deserto sobre o qual está o Infinito. Este berço apresenta aos anjos purezas, belezas e superioridades tais, que eles aspiram tê-lA como Rainha. (L.Lemann) 

"Quem é esta que se adianta como a aurora a despontar?" (Cant 6,9). 

Desde o despertar do Seu espírito e de Seu coração, Maria põe em prática, sem que disso duvide a sua candura, a significação da palavra "alma", pela qual Isaías anunciou ao mundo "uma virgem oculta, retirada, subtraída a todos os olhares". 

Com a idade de três anos, se devemos crer na tradição, os primeiros passos da imaculada criança conduzem-nA para o altar do Senhor. Ela possui todas as graças da infância, todas as delicadezas da pureza, toda a irradiação do amor. 

Sua alma virginal ilumina o Seu pequeno corpo santificado, os anéis de Seus cabelos louros cingem-lhe a fronte, como que de uma auréola de modéstia, e o Seu límpido olhar faz nascer a virtude e conduz a Deus. 

É uma como aparição vinda do Céu; é a Virgem criancinha! 

Sua alma se abre radiosa diante de Deus. As Suas pequenas mãos se estendem para o Santo dos santos, os Seus olhos fitam, iluminados, a eternidade. E os anjos cantam deslumbrados: Quae est ista?, quem é aquela que se adianta tão pura, tão santa e tão imaculada?... 

E a Virgem criancinha cresce em graça e em beleza diante de Deus e diante dos homens. E Ela, que já parecia saturada dos eflúvios da divina graça, nEla se sacia avidamente e se dilata, e aquela que Lhe foi abundantemente dada, ela ajunta o que pede, o que atrai e o que merece. 

Para falar sem figuras, esta plenitude inicial de graças, com que o Céu a gratificou, enriqueceu-se de uma plenitude adquirida por Sua cooperação santa. 

No templo, a tenra Virgem Se entrega às santas meditações, às leituras sagradas e aos exercícios piedosos. Ela Se dá à prece com uma avidez insaciável. Os seus pequenos braços não abandonam o trabalho, a obediência dirige os Seus passos, a humildade constitui a sua auréola, a pureza eleva-A ao ponto culminante do heroísmo, em enquanto doce e cândida, Ela faz a Deus o voto de virgindade, todas as virtudes vêm como que personificar-se nesta débil e doce criatura que Suas companheiras chamarão "a pequena Maria". 

E, nas alturas, os anjos não contemplam simplesmente, mas admiram até. E à vista desta luz então mais aparente e mais viva, que brilha à sombra do santuário, eles cantam com maior alegria e maior júbilo: "Quae est esta? - quem é, pois, aquela que tem a beleza silenciosa e casta dos astros da noite? É Ela que era luz, ei-lA agora foco. 

E a Virgem cresce sempre e Se torna cada vez mais "o que deve ser", transformando a graça, puro dom de Deus, em mérito, riqueza adquirida - Ela cresce. 

A medida parece estar repleta, mas o coração da Virgem adolescente se dilata sempre, aumenta, sob a pressão das novas "plenitudes", que sucedem à plenitude inicial. 

Por meio da fé, dos santos desejos, do amor e da prece, Ela voa até Deus, vai alcançá-lO, Ela O toca!... 

E os anjos, comovidos, cantam, extasiados: "Quae est ista? - Oh! quem é aquela que Se aproxima assim de Deus, que tanto é amada por Ele, e que O ama com um amor tão intenso, tão divino?... 

O mistério realizou-se aqui na terra, e Deus engrandeceu de tal modo o coração de Maria, que Ela chega ao ponto supremo de santidade, e Se coloca em contato com Deus. 

Deus Se precipita em Maria, diz Mons. Bolo (H. Bolo: Cheia de graça), pela simples lei da afinidade que rege o mundo sobrenatural, como o mundo natural. Sendo Maria Santíssima uma simples criatura, não pode ser divinizada, no sentido próprio da palavra, mas Deus substituiu a distância que Ela não podia transpor: - Ele se encarna. 

Maria Santíssima não Se torna Deus em Deus, mas o Verbo Se faz carne em Sua carne. Que plenitude! Que incompreensível grandeza! Ser Mãe do Verbo de quem o Eterno é o Pai!... 

Os anjos, que contemplam sempre, velam a face com as suas asas... Quae est ista?... Quem, pois, é Ela?... Eleita por Deus, Maria brilha entre os eleitos como aquele que os ilumina, resplandece como o sol! 

Parará aí a Virgem?... Haverá uma altura mais elevada de graças do que aquela que causa vertigem aos anjos?... Será possível ultrapassar a grandeza e a beleza de visão de uma Virgem que possui, amamenta, aquece em Seus braços a Luz e o Salvador do mundo? 

Impossível aos homens, impossível aos anjos, porém não o é para Deus. Querendo torná-lA ainda mais bela, dotando-A com toda a plenitude de beleza, Ele a fará subir um novo degrau da escada do infinito. 

E, de fato, mesmo aqui neste mundo, a grandeza, a elevação, o poder, os encantos da alma, do coração e do espírito não são a última palavra de beleza... fica-lhe ainda a dor. 

Escreveu a respeito um eminente poeta: 

"Dir-se-ia que a vida não faz senão tocar de leve a superfície da alma daqueles que não sofrem, disse Mons. Bougaud (O cristianismo e os tempos presentes), seus sentimentos são sem intensidade, o seu coração não tem ternuras, o seu espírito não possui um horizonte! Sobre a dor são graduadas a beleza e a grandeza das almas". 

E esta auréola vem juntar-se às demais auréolas que iluminam a fronte virginal de Maria. 

Mas, meu Deus, será possível?... Fazer sofrer esta criatura amante, pura, ornada de todas as graças e de todas as ternuras de Vosso coração?... Magoar esta alma cândida de que sois a única aspiração, calçar este coração amante que não suspira senão por Vós? 

Oh! quem, entre os homens, teria a barbaridade de fazer sofrer esta Virgem?... Quem?... Entretanto, é preciso, porque a dor é o píncaro da beleza moral!... 

E no alto dos céus, os anjos, mais e mais maravilhados, entoam ainda o seu "Quae est ista? - Quem será esta jovem aflita, absorvida, mergulhada num abismo de dores, às quais não se assemelha nenhuma outra dor? 

Sim, a Virgem "cheia de graça" é também "cheia de dores" subiu ao Calvário, e aí, de pé, sob a alude esmagadora de Seu Filho, que todos abandonaram, e com Ele em espírito sobre o patíbulo da Cruz, Ela ajunta à plenitude de Sua beleza a plenitude do heroísmo. 

Ela se torna então a Mãe da dor, a Mãe aflita, a Rainha dos mártires!... 

E os anjos, em sua admiração, recomeçam, jubilosos: "Quae est ista?...Quem é esta mulher forte, feita de amor, de beleza e de heroísmo?... 

"Ela é terrível como um exército em ordem de batalha" (Cant. 6,9). Tudo isto é sublime, inenarrável, divino! 

Até aqui, diz Mons. Bolo, a Virgem, vítima, teve ainda o Seu Jesus junto a Si, para fortificá-lA e encorajálA pelo exemplo e pela palavra. 

O Seu coração se inflamava ao contato de Seu Filho e Seu Deus. Sua alma se dilatava, desejosa de sofrimento e de martírio, ao contato da alma do Salvador. 

Deus, porém, vai pedir-Lhe um sacrifício supremo: - o de sobreviver ao Seu Jesus, durante mais de vinte anos, sozinha, desamparada, sem o apoio d'Aquele que era tudo para Ela. Que sacrifício!... 

E a pobre Mãe dolente viu estenderem-se ainda as trevas de Seu longo luto, após a luz tão resplandecente da Sua união a Jesus. A santa e virginal Mártir ficará na terra meditando sem cessar os sofrimentos de Seu amado Filho, visitando lacrimosa os lugares das torturas, beijando e cobrindo de ternura tudo o que Jesus tocara e santificara na terra. 

Ela ficará assim durante mais de vinte anos, carregando o horrível fardo da lembrança dos sofrimentos de Jesus. 

Que martírio! se sob um tão grande peso - o peso esmagador de tantas lembranças, Sua energia, longe de desfalecer, cresce ainda mais, se o Seu coração amante, em vez de se esgotar, se torna mais largo e mais profundo em Seu amor, durante esta longa ausência do Bem-Amado, não será isso uma nova plenitude, acrescentada às demais?... 

Eis por que Maria espera na terra, continuando o Seu misterioso crescimento. E isto, até à hora em que a graça, pela sua abundância, rompe o vaso abalastrino de Sua carne, que já não podia conter tanto perfume, em que Ela voa em corpo e alma para a morada da plenitude absoluta da graça, por não poder a terra ficar em posse de um tesouro demais ideal, de que só o céu é digno. 

E os anjos exultam, emociona-se o paraíso, vão eles, enfim, possuir em Jesus e Maria o ideal da beleza criada. A multidão celeste vai ter Sua Rainha e vai fazer-Lhe as honras do triunfo, de cuja demora já estão impacientes. 

E embora saibam desde muito tempo o Seu nome, eles cantam: "Quae est ista? - Quem é esta que sobe do deserto deste mundo como uma leve coluna de fumo, composta de aroma de mirra, de incenso e de toda espécie de aromas?"... (Cant. 3,6). 

O triunfo é completo. A beleza da Virgem está concluída e atingiu a Sua plenitude. Ela reina lá nos Céus à direita de seu Filho, radiante de todas as graças, com a fronte cingida de todas as glórias, resplandecendo de todas as belezas. 

E Ela se nos mostra a nós, que somos Seus filhos, para ser amada!... E quem não A amaria?... Corremos ao encalço da beleza para dar-lhe o nosso coração, e atingindo o nosso ideal, inebriamo-nos ao Seu aspecto!... 

Elevemos os olhos, fitemos Maria, bela com todos os encantos! Ela deslumbrou o coração de Deus, dos anjos, dos santos e não deslumbraria o nosso coração?... Ó Maria! "Specie tua et pulchritudine tua, prospere procede et regna", por Vossa beleza e Vossas graças, apoderai-Vos dos nossos corações e reinai sobre nós!
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Excerto do livro Por que amo Maria, de Padre Júlio Maria, Missionário de Nossa Senhora do Santíssimo Sacramento (1945)

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Relato de um Padre Passionista sobre Santa Gema Galgani

Santa Gema em êxtase
Santa Gema Galgani é dona de uma das vidas mais extraordinárias de santos já canonizados pela Santa Igreja. Afirmo isso não desmerecendo as vidas dos incontáveis santos que a Igreja de Cristo já criou, mas com inefável admiração aos exímios fenômenos sobrenaturais que esta criatura angélica sofreu em vida. Sou devota de Santa Gema e tenho profunda admiração por sua vida, sua humildade e suas virtudes, muitas das quais são  impossíveis de imitar, mas perfeitíssimas para admirar as obras que Deus pode fazer nas suas almas prediletas. Compartilho hoje o testemunho de um Padre Passionista, chamado Pedro Paulo da Imaculada, que teve a honra de estar perto de Santa Gema em alguns momentos, ficando admirado com os maravilhosos desígnios de Deus em Gema. Esse relato o Reverendo Padre fez ao Diretor Espiritual de Gema, o Monsenhor Volpi, que tinha uma tendência de não acreditar nos imperscrutáveis fenômenos que infundiam o esquálido e virginal corpo da santa criatura. Leiam e, se possível, sentados.


Referindo-se à Serva de Deus, Padre Pedro Paulo da Imaculada escreve: 

“Aproveitando as ocasiões oportunas, conferenciei muitas vezes com Gema, ouvi sua confissão geral em três vezes, tanto era o cuidado com que a quis fazer, e pude convencer-me bem de que esta criatura conservava a inocência batismal. Por vezes, contemplei-a fora de si, em estado de êxtase. Bastava que se pusesse a rezar, ou lhe falassem em coisas espirituais, principalmente sobre a Paixão de Nosso Senhor, para logo ficar extática. Então transfigurava-se com os olhos fixos e abertos para um determinado ponto, e com o corpo imóvel, embora se conservasse flexível. 

Tornava-se insensível a qualquer ruído, e até às picadas de alfinetes, e à luz viva de uma vela que se lhe aproximasse dos olhos. Mas se tudo se paralisava nela durante aquele tempo, era em extremo sensível às coisas celestiais, e percebia-se exteriormente que ela expandia seu amor com Deus em ardentes expressões: 

<<Sim amo-Vos, meu Jesus; serei toda Vossa, sofrerei muito por Vós!>> 

Sua presença e atitude nesses momentos era verdadeiramente angélica. O rosto resplandecia com tal beleza e majestade, que extasiava.” 

Finalmente depois de ter dito que o que mais o tinha impressionada em Gema, eram as suas grandes virtudes, sobre as quais se baseava para asseverar com força que os fatos extraordinários que se davam com ela, não podiam vir senão só de Deus, termina seu relatório, dando de sua virtude o testemunho brilhante e escreve o seguinte: “Pude apreciar nela uma pureza angélica. Não só conserva intacta a inocência batismal, como tanto quanto pude avaliar, jamais cometeu uma pequena falta com plena advertência em toda sua vida. 

Sua humildade era profundíssima. 

Não tinha nenhuma estima de si mesma; desejava ser humilhada e repreendida; e tendo recebido desprezos e mortificações sem conta, nunca mostrou sentir por eles o menor desprazer; pelo contrário, parecia então mais contente, conservando um sorriso nos lábios. 

A obediência, que praticava, era singular, direi mesmo admirável. 

Jamais se opôs não direi a uma ordem, mas até um sinal ou desejo que eu ou alguma outra pessoa lhe manifestasse. Obedecia sempre com prontidão, simplicidade e alegria em toda a extensão da palavra, qualquer que fosse a imposição. E onde mais especialmente revelou a sua heroica obediência foi no exercício da oração. 

O Senhor a tinha elevado a um grau tão alto de contemplação, que bastava, começar a rezar para logo ficar abstrata dos sentidos. 

Pois bem, seu confessor ordinário julgou conveniente impor-lhe que na oração, seguisse o método comum dos principiantes; e a donzela não fez a menor resistência, e empregou contínuos esforços, para conseguir observar exatamente a ordem recebida, embora se sentisse continuamente atraída a contemplar a Deus e aos seus divinos atributos. 

Este gênero de martírio durou quase dois anos. 

A mortificação dos sentidos era contínua e severíssima. 

Alimentava-se tão parcamente, parecia um milagre, poder viver com tão pouco. E até se não fora obrigada pela obediência, daquela pequena porção se teria privado, sentindo-se, como dizia, bem saciada com o Pão dos Anjos, com o qual todas as manhãs sustentava. Quanto ao mais, para ela tudo era igual, tudo era bom. 

No vestuário nunca teve a menor vaidade, antes viam-na sempre pouco atenta e solicita nesse ponto. 

Jamais procurou uma roupa, um divertimento, um prazer; como jamais ninguém a ouviu queixar-se do frio e do calor, parecendo até insensível a tudo. 

O amor ao sofrimento era sua nota característica 

Dos seus abençoados lábios jamais saiu um lamento, nem na doença gravíssima que teve, nem nas mortificações e humilhações por que passou, nem nos assaltos cruéis que lhe deram os demônios. 

A lembrança contínua que tinha de Jesus Crucificado a estimulava a sofrer sempre, nem queria outra coisa senão sofrer, e o que sofria lhe parecia sempre pouco. 

Esta criatura tinha se oferecido ao Sagrado Coração de Jesus, como vítima pela conversão dos pobres pecadores, e para alcançar que voltassem para Deus, aceitava de bom grado as dores as mais cruéis. 

Por este motivo, e mais ainda pelo seu ardente amor, desejava continuamente, sofrer com Jesus na cruz, viver sempre sobre a cruz e morrer com Jesus na cruz, nas mais acerbas penas. 

O Esposo Divino satisfez-lhe plenamente tão sublime desejo durante toda a vida e até a hora da morte, que suportou sempre os mais cruéis martírios, tanto na alma quanto no corpo. 

Que direi também de sua união com Deus? Posso assegurar que era contínua essa união. Até mesmo nas ocupações de maior distração, todos a viam sempre recolhida e com espírito e o coração absorto em Deus. 

Devido a este habitual e profundo recolhimento, nunca se lhe ouvia a voz; respondia laconicamente as perguntas que lhe faziam, e encerrava-se de novo no seu silêncio. 

Vivia tão identificada com o Sumo Bem, que parecia antes uma criatura do Céu do que da terra. 

Eis em resumo, assim termina o longo relatório, as virtudes em que se exercitou sempre esta criatura; virtude certamente raras, que revelam claramente uma alma transbordando de amor em Deus. 

Por esta razão, estou firme em crer, que era de Deus, tão amado e servido por ela, que provinham aqueles extraordinários fenômenos que tanto temos admirado. 

Padre Pedro Paulo da Imaculada, Passionista.
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Extraído da Biografia de Santa Gema escrita pelo Padre Germano de Santo Estanislau, edição de 1927.

Dogma da Assunção de Maria

Obra de Francesco Albani
Hoje, 15 de Agosto, celebramos solenemente e com alegria a Festa da Assunção de Maria, com fé que Ela subiu ao Céu em corpo e alma, pois a criatura mais pura e mais bela já criada por Deus não tem a mancha do pecado original e, portanto, não poderia sofrer a degeneração do corpo após a morte, e, também não poderia morrer, mas morreu de amor, o que chamamos de sua dormição.

Abaixo a Constituição Apostólica de Pio XII, declarando o dogma da Assunção de Maria. Uma feliz festa!


MUNIFICENTISSIMUS DEUS

DEFINIÇÃO DO DOGMA DA ASSUNÇÃO DE NOSSA SENHORA EM CORPO E ALMA AO CÉU.

Introdução

1. Deus munificentíssimo, que tudo p ode, e cujos planos de providência são cheios de sabedoria e de amor, nos seus imperscrutáveis desígnios, entremeia na vida os povos e dos indivíduos as dores com as alegrias, para que por diversos caminhos e de várias maneiras tudo coopere para o bem dos que o amam (cf. Rm 8,28).

2. o nosso pontificado, assim como os tempos atuais, tem sido assediado por inúmeros cuidados, preocupações e angústias, devido às grandes calamidades e por muitos que andam afastados da verdade e da virtude. Mas é para nós de grande conforto ver como, à medida que a fé católica se manifesta publicamente cada vez mais ativa, aumenta também cada dia o amor e a devoção para com a Mãe de Deus, e quase por toda parte isso é estímulo e auspício de uma vida melhor e mais santa. E assim sucede que, por um lado, a santíssima Virgem desempenha amorosamente a sua missão de mãe para com os que foram remidos pelo sangue de Cristo, e por outro, as inteligências e os corações dos filhos são estimulados a uma mais profunda e diligente contemplação dos seus privilégios.

3. De fato, Deus, que desde toda a eternidade olhou para a virgem Maria com particular e pleníssima complacência, quando chegou a plenitude dos tempos (Gl 4,4) atuou o plano da sua providência de forma que refulgissem com perfeitíssima harmonia os privilégios e prerrogativas que lhe concedera com sua liberalidade. A Igreja sempre reconheceu esta grande liberalidade e a perfeita harmonia de graças, e durante o decurso dos séculos sempre procurou estudá-la melhor. Nestes nossos tempos refulgiu com luz mais clara o privilégio da assunção corpórea da Mãe de Deus.

4. Esse privilégio brilhou com novo fulgor quando o nosso predecessor de imortal memória, Pio IX, definiu solenemente o dogma da Imaculada Conceição. De fato esses dois dogmas estão estreitamente conexos entre si. Cristo com a própria morte venceu a morte e o pecado, e todo aquele que pelo batismo de novo é gerado, sobrenaturalmente, pela graça, vence também o pecado e a morte. Porém Deus, por lei ordinária, só concederá aos justos o pleno efeito desta vitória sobre a morte, quando chegar o fim dos tempos. Por esse motivo, os corpos dos justos corrompem-se depois da morte, e só no último dia se juntarão com a própria alma gloriosa.

5. Mas Deus quis excetuar dessa lei geral a bem-aventurada virgem Maria. Por um privilégio inteiramente singular ela venceu o pecado com a sua concepção imaculada; e por esse motivo não foi sujeita à lei de permanecer na corrupção do sepulcro, nem teve de esperar a redenção do corpo até ao fim dos tempos.

6. Quando se definiu solenemente que a virgem Maria, Mãe de Deus, foi imune desde a sua concepção de toda a mancha, logo os corações dos fiéis conceberam uma mais viva esperança de que em breve o supremo magistério da Igreja definiria também o dogma da assunção corpórea da virgem Maria ao céu.

Petições para a definição dogmática

7. De fato, sucedeu que não só os simples fiéis, mas até aqueles que, em certo modo, personificam as nações ou as províncias eclesiásticas, e mesmo não poucos Padres do concílio Vaticano pediram instantemente à Sé Apostólica esta definição.

8. Com o decurso do tempo essas petições e votos não diminuíram, antes foram aumentando de dia para dia em número e insistência. Com esse fim fizeram-se cruzadas de orações; muitos e exímios teólogos intensificaram com ardor os seus estudos sobre este ponto, quer em privado, quer nas universidades eclesiásticas ou nas outras escolas de disciplinas sagradas; celebraram-se em muitas partes congressos marianos nacionais e internacionais. Todos esses estudos e investigações mostraram com maior realce que no depósito da fé cristã, confiado à Igreja, tatmbém se encontrava a assunção da virgem Maria ao céu. E de ordinário a conseqüência foi enviarem súplicas em que se pedia instantemente a definição solene desta verdade.

9. Acompanhavam os fiéis nessa piedosa insistência os seus sagrados pastores, os quais dirigiram a esta cadeira de S. Pedro semelhantes petições em número muito considerável. Quando fomos elevado ao sumo pontificado, já tinham sido apresentadas a esta Sé Apostólica muitos milhares dessas súplicas, vindas de todas as partes do mundo e de todas as classes de pessoas: dos nossos amados filhos cardeais do Sacro Colégio, dos nossos veneráveis irmãos arcebispos e bispos, das dioceses e das paróquias.

10. Por esse motivo, ao mesmo tempo que dirigíamos a Deus intensas súplicas, para que concedesse à nossa mente a luz do Espírito Santo para decidirmos tão importante causa, estabelecemos normas especiais em que determinamos que se procedesse com todo o cuidado a um estudo mais rigoroso da matéria, e se reunissem e examinassem todas as petições relativas à assunção da santíssima virgem, enviadas à Sé Apostólica desde o tempo do nosso predecessor de feliz memória, Pio IX, até ao presente.(1)

Consulta ao episcopado

11. Mas como se tratava de assunto de tanta importância e transcendência, julgamos oportuno rogar direta e oficialmente a todos os nossos veneráveis irmãos no episcopado, que nos quisessem manifestar explicitamente a sua opinião. Para tal fim, no dia 1° de maio de 1946, dirigimos-lhes a carta encíclica "Deiparae Virginis Mariae" em que fazíamos esta pergunta: "Se vós, veneráveis irmãos, na vossa exímia sabedoria e prudência, julgais que a assunção corpórea da santíssima Virgem pode ser proposta e definida como dogma de fé, e se desejais que o seja, tanto vós como o vosso clero e fiéis".

Doutrina concorde do magistério da Igreja

12. E aqueles que "o Espírito Santo colocou como bispos para reger a Igreja de Deus" (At 20, 28) quase unanimemente deram resposta afirmativa a ambas as perguntas. Essa "singular concordância dos bispos e fiéis" (2) em julgar que a assunção corpórea ao céu da Mãe de Deus podia ser definida como dogma de fé, mostra-nos a doutrina concorde do magistério ordinário da Igreja, e a fé igualmente concorde do povo cristão - que aquele magistério sustenta e dirige - e por isso mesmo manifesta, de modo certo e imune de erro, que tal privilégio é verdade revelada por Deus e contida no depósito divino que Jesus Cristo confiou a sua esposa para o guardar fielmente e infalivelmente o declarar. (3) De fato, esse magistério da Igreja, não por estudo meramente humano, mas pela assistência do Espírito de verdade (cf. Jo 14,26), e portanto absolutamente sem nenhum erro, desempenha a missão que lhe foi confiada de conservar sempre puras e íntegras as verdades reveladas; e pelo mesmo motivo transmite-as sem contaminação e sem lhes ajuntar nem subtrair nada. "Pois - como ensina o concílio Vaticano - o Espírito Santo foi prometido aos sucessores de Pedro não para que, por sua revelação, expressem doutrinas novas, mas para que, com sua assistência, guardassem com cuidado e expusessem fielmente a revelação transmitida pelos apóstolos, ou seja o depósito da fé". (4) Por essa razão, do consenso universal do magistério da Igreja, deduz-se um argumento certo e seguro para demonstrar a assunção corpórea da bem-aventurada virgem Maria. Esse mistério, pelo que respeita à glorificação celestial do corpo da augusta Mãe de Deus, não podia ser conhecido por nenhuma faculdade da inteligência humana só com as forças naturais. É, portanto, verdade revelada por Deus, e por essa razão todos os filhos da Igreja têm obrigação de a crer firme e fielmente. Pois, como afirma o mesmo concílio Vaticano, "temos obrigação de crer com fé divina e católica, todas as coisas que se contêm na palavra de Deus escrita ou transmitida oralmente, e que a Igreja, com solene definição ou com o seu magistério ordinário e universal, nos propõe para crer, como reveladas por Deus".(5)

Testemunhos da crença na assunção

13. Desde tempos remotíssimos, pelo decurso dos séculos, aparecem-nos testemunhos, indícios e vestígios desta fé comum da Igreja; fé que se manifesta cada vez mais claramente.

14. Os fiéis, guiados e instruídos pelos pastores, souberam por meio da Sagrada Escritura que a virgem Maria, durante a sua peregrinação terrestre, levou vida cheia de cuidados, angústias e sofrimentos; e que, segundo a profecia do santo velho Simeão, uma espada de dor lhe traspassou o coração, junto da cruz do seu divino Filho e nosso Redentor. E do mesmo modo, não tiveram dificuldade em admitir que, à semelhança do seu unigênito Filho, também a excelsa Mãe de Deus morreu. Mas essa persuasão não os impediu de crer expressa e firmemente que o seu sagrado corpo não sofreu a corrupção do sepulcro, nem foi reduzido à podridão e cinzas aquele tabernáculo do Verbo divino. Pelo contrário, os fiéis iluminados pela graça e abrasados de amor para com aquela que é Mãe de Deus e nossa Mãe dulcíssima, compreenderam cada vez com maior clareza a maravilhosa harmonia existente entre os privilégios concedidos por Deus àquela que o mesmo Deus quis associar ao nosso Redentor. Esses privilégios elevaram-na a uma altura tão grande, que não foi atingida por nenhum ser criado, excetuada somente a natureza humana de Cristo.

15. Patenteiam inequivocamente esta mesma fé os inumeráveis templos consagrados a Deus em honra da assunção de nossa Senhora, e as imagens neles expostas à veneração dos fiéis, que mostram aos olhos de todos este singular triunfo da santíssima Virgem. Muitas cidades, dioceses e regiões foram consagradas ao especial patrocínio e proteção da assunção da Mãe de Deus. Do mesmo modo, com aprovação da Igreja, fundaram-se Institutos religiosos com o nome deste privilégio. Nem se deve passar em silêncio que no rosário de nossa Senhora, cuja reza tanto recomenda esta Sé Apostólica, há um mistério proposto à nossa meditação, que, como todos sabem, é consagrado à assunção da santíssima Virgem ao céu.

Testemunho da liturgia

16. De modo ainda mais universal e esplendoroso se manifesta esta fé dos pastores e dos fiéis, com a festa litúrgica da assunção celebrada desde tempos antiquíssimos no Oriente e no Ocidente. Nunca os santos padres e doutores da Igreja deixaram de haurir luz nesta solenidade, pois, como todos sabem, a sagrada liturgia, "sendo também profissão das verdades católicas, e estando sujeita ao supremo magistério da Igreja, pode fornecer argumentos e testemunhos de não pequeno valor para determinar algum ponto da doutrina cristã".(6)

17. Nos livros litúrgicos em que aparece a festa da Dormição ou da Assunção de santa Maria, encontram-se expressões que de uma ou outra maneira concordam em referir que, quando a virgem Mãe de Deus passou deste exílio para o céu, por uma especial providência divina, sucedeu ao seu corpo algo de consentâneo com a dignidade de Mãe do Verbo encarnado e com os outros privilégios que lhe foram concedidos. É o que se afirma, para apresentarmos um exemplo elucidativo, no Sacramentário enviado pelo nosso predecessor de imortal memória Adriano I, ao imperador Carlos Magno. Nele se diz: "É digna de veneração, Senhor, a festividade deste dia, em que a santa Mãe de Deus sofreu a morte temporal; mas não pode ficar presa com as algemas da morte aquela que gerou no seu seio o Verbo de Deus encarnado, vosso Filho, nosso Senhor".(7)

18. Aquilo que aqui se refere com a sobriedade de palavras costumeiras na Liturgia romana, exprime-se mais difusamente nos outros livros das antigas liturgias orientais e ocidentais. O Sacramentário Galicano, por exemplo, chama a esse privilégio de Maria, "inexplicável mistério, tanto mais digno de ser proclamado, quanto é único entre os homens, pela assunção da virgem". E na liturgia bizantina a assunção corporal da virgem Maria é relacionada diversas vezes não só com a dignidade de Mãe de Deus, mas também com os outros privilégios, especialmente com a sua maternidade virginal, decretada por um singular desígnio da Providência divina: "Deus, Rei do universo, concedeu-vos privilégios que superam a natureza; assim como no parto vos conservou a virgindade, assim no sepulcro vos preservou o corpo da corrupção e o conglorificou pela divina translação".(8)

A festa da Assunção

19. A Sé Apostólica, herdeira do múnus confiado ao Príncipe dos apóstolos de confirmar na fé os irmãos (cf. Lc 22,32), com sua autoridade foi tornando cada vez mais solene esta celebração. Esse fato estimulou eficazmente os fiéis a irem-se apercebendo mais e mais da importância deste mistério. E assim, a festa da assunção, que ao princípio tinha o mesmo grau de solenidade que as restantes festas marianas, foi elevada ao rito das festas mais solenes do ciclo litúrgico. O nosso predecessor S. Sérgio I, ao prescrever as ladainhas, ou a chamada procissão estacional, nas festas de nossa Senhora, enumera simultaneamente a Natividade, a Anunciação, a Purificação e a Dormição.(9) A festa já se celebrava com o nome de assunção da bem-aventurada Mãe de Deus, no tempo de S. Leão IV Esse papa procurou que se revestisse de maior esplendor, mandando ajuntar-lhe a vigília e a oitava. E o próprio pontífice quis participar nessas solenidades, acompanhado de imensa multidão. (10) Na vigília já de há muito se guardava o jejum, como se prova com evidência do que afirma o nosso predecessor S. Nicolau I, ao tratar dos principais jejuns "que... desde os tempos antigos observava e ainda observa a santa Igreja romana".(11)

20. A Liturgia da Igreja não cria a fé católica, mas supõe-na; e é dessa fé que brotam os ritos sagrados, como da árvore os frutos. Por isso os santos Padres e doutores nas homilias e sermões que nesse dia fizeram ao povo, não foram buscar essa doutrina à liturgia, como a fonte primária; mas falaram dela aos fiéis como de coisa sabida e admitida por todos. Declararam-na melhor, explicaram o seu significado e o fato com razões mais profundas, destacando e amplificando aquilo a que muitas vezes os livros litúrgicos apenas aludiam em poucas palavras, a saber, que com esta festa não se comemora somente a incorrupção do corpo morto da santíssima Virgem, mas principalmente o triunfo por ela alcançado sobre a morte e a sua celeste glorificação à semelhança do seu Filho unigênito, Jesus Cristo.

Testemunho dos santos Padres

21. S. João Damasceno, que entre todos se distingue como pregoeiro dessa tradição, ao comparar a assunção gloriosa da Mãe de Deus com as suas outras prerrogativas e privilégios, exclama com veemente eloqüência: "Convinha que aquela que no parto manteve ilibada virgindade conservasse o corpo incorrupto mesmo depois da morte. Convinha que aquela que trouxe no seio o Criador encarnado, habitasse entre os divinos tabernáculos. Convinha que morasse no tálamo celestial aquela que o Eterno Pai desposara. Convinha que aquela que viu o seu Filho na cruz, com o coração traspassado por uma espada de dor de que tinha sido imune no parto, contemplasse assentada à direita do Pai. Convinha que a Mãe de Deus possuísse o que era do Filho, e que fosse venerada por todas as criaturas como Mãe e Serva do mesmo Deus".(12)

22. Condizem com essas palavras de s. João Damasceno as de muitos outros que afirmam a mesma doutrina. E não são menos expressivas, nem menos exatas, as palavras que se encontram nos sermões proferidos pelos santos Padres mais antigos ou da mesma época, ordinariamente por ocasião dessa festividade. Assim, para citar outro exemplo, s. Germano de Constantinopla julgava que a incorrupção do corpo da virgem Maria Mãe de Deus, e a sua assunção ao céu são corolários não só da sua maternidade divina, mas até da santidade singular daquele corpo virginal: "Vós, como está escrito, aparecestes 'em beleza'; o vosso corpo virginal é totalmente santo, totalmente casto, totalmente domicílio de Deus de forma que até por este motivo foi isento de desfazer-se em pó; foi, sim, transformado, enquanto era humano, para viver a vida altíssima da incorruptibilidade; mas agora está vivo, gloriosíssimo, incólume e participante da vida perfeita".(13) Outro escritor antiquíssimo assevera por sua vez: "A gloriosíssima Mãe de Cristo, Deus e Salvador nosso, dador da vida e da imortalidade, foi glorificada e revestida do corpo na eterna incorruptibilidade, por aquele mesmo que a ressuscitou do sepulcro e a chamou a si duma forma que só ele sabe".(14)

23. À medida que a festa litúrgica se foi espalhando, e celebrando mais devotamente, maior foi o número de bispos e oradores sagrados que julgaram de seu dever explicar com toda a clareza o mistério que se venerava nesta solenidade e mostrar como ela estava intimamente relacionada com as outras verdades reveladas.

Testemunho dos teólogos

24. Entre os teólogos escolásticos, não faltaram alguns, que, pretendendo penetrar mais profundamente nas verdades reveladas, e mostrar o acordo entre a chamada razão teológica e a fé católica, notaram a estreita conexão existente entre este privilégio da assunção da santíssima Virgem e as demais verdades contidas na Sagrada Escritura.

25. Partindo desse pressuposto, apresentam diversas razões para corroborar esse privilégio mariano. A razão primária e fundamental diziam ser o amor filial de Cristo para o levar a querer a assunção de sua Mãe ao céu. E advertiam mais, que a força dos argumentos se baseava na incomparável dignidade da sua maternidade divina e em todas as graças que dela derivam: a santidade altíssima que excede a santidade de todos os homens e anjos, a íntima união de Maria com o seu Filho, e sobretudo o amor que o Filho consagrava a sua Mãe digníssima.

26. Muitas vezes os teólogos e oradores sagrados, seguindo os passos dos santos Padres,(15) para explicarem a sua fé na assunção, serviram-se com certa liberdade de fatos e textos da Sagrada Escritura. E assim, para mencionar só alguns mais empregados, houve quem citasse a este propósito as palavras do Salmista: "Erguei-vos, Senhor, para o vosso repouso, vós e a Arca de vossa santificação" (Sl 131, 8); e na Arca da Aliança, feita de madeira incorruptível e colocada no templo de Deus, viam como que uma imagem do corpo puríssimo da virgem Maria, preservado da corrupção do sepulcro, e elevado a tamanha glória no céu. Do mesmo modo, ao tratar desta matéria, descrevem a entrada triunfal da Rainha na corte celeste, e como se vai sentar a direita do divino Redentor (Sl 44,10.14-16); e recordam a propósito a esposa dos Cantares "que sobe pelo deserto, como uma coluna de mirra e de incenso" para ser coroada (Ct 3,6; cf. 4,8; 6,9). Ambas são propostas como imagens daquela Rainha e Esposa celestial, que sobe ao céu com o seu divino Esposo.

27. Os doutores escolásticos vislumbram igualmente a assunção da Mãe de Deus não só em várias figuras do Antigo Testamento, mas também naquela mulher, revestida de sol, que o apóstolo s. João contemplou na ilha de Patmos (Ap 12, ls.). Porém, entre os textos do Novo Testamento, consideraram e examinaram com particular cuidado aquelas palavras: "Ave, cheia de graça, o Senhor é convosco, bendita sois vós entre as mulheres" (Lc 1,28), pois viram no mistério da assunção o complemento daquela plenitude de graça, concedida à santíssima Virgem, e uma singular bênção contraposta à maldição de Eva.

Na teologia escolástica

28. Por esse motivo, nos primórdios da teologia escolástica, o piedosíssimo varão Amadeu, bispo de Lausana, afirmava que a carne da virgem Maria permaneceu incorrupta - nem se pode crer que o seu corpo padecesse a corrupção -, porque se uniu de novo à alma, e juntamente com ela penetrou na corte celestial. "Pois ela era cheia de graça e bendita entre as mulheres (Lc 1,28). Só ela mereceu conceber o Deus verdadeiro do Deus verdadeiro, e sendo virgem deu-o à luz, amamentou-o, trouxe-o no regaço, e prestou-lhe todos os cuidados maternos".(16)

29. Entre os escritores sagrados que naquele tempo com vários textos, comparações e analogias tiradas das divinas Letras, ilustraram e confirmaram a doutrina da assunção em que piamente acreditavam, ocupa lugar primordial o doutor evangélico s. Antônio de Pádua. Na festa da assunção, ao comentar aquelas palavras de Isaías: "glorificarei o lugar dos meus pés" (Is 60,13), afirmou com segurança que o divino Redentor glorificou de modo mais perfeito a sua Mãe amantíssima, da qual tomara carne humana. "Daqui, vê-se claramente", diz, "que o corpo da santíssima Virgem foi assunto ao céu, pois era o lugar dos pés do Senhor". Pelo que, escreve o Salmista: "Erguei-vos, Senhor, para o vosso repouso, vós e a Arca da vossa santificação". E assim como, acrescenta ainda, Jesus Cristo ressuscitou triunfante da morte e subiu para a direita do Pai, assim também "ressuscitou a Arca da sua santificação, quando neste dia a virgem Mãe foi assunta ao tálamo celestial".(17)

No período áureo

30. Quando, na Idade Média, a teologia escolástica atingiu o maior esplendor, s. Alberto Magno, para demonstrar essa verdade, apresenta vários argumentos fundados na Sagrada Escritura, na tradição, na liturgia e em razões teológicas, e conclui: "Por estas e outras muitas razões e autoridades, é evidente que a bem-aventurada Mãe de Deus foi assunta ao céu em corpo e alma sobre os coros dos anjos. E cremos que isto é absolutamente verdadeiro".(18) E num sermão pregado em dia da Anunciação de nossa Senhora, ao explicar aquelas palavras do anjo: "Ave, cheia de graça...", o doutor universal compara a santíssima Virgem com Eva, e afirma clara e terminantemente que Maria foi livre das quatro maldições que caíram sobre Eva.(19)

31. O Doutor Angélico, seguindo as pisadas do mestre, ainda que nunca trate expressamente do assunto, no entanto sempre que se oferece a ocasião fala dele, e com a Igreja católica afirma que o corpo de Maria juntamente com a alma foi levado ao céu.(20)

32. É da mesma opinião, entre outros muitos, o Doutor Seráfico, o qual tem como certo que, assim como Deus preservou Maria santíssima da violação do pudor e da integridade virginal ao conceber e dar à luz o seu Filho, assim não permitiu que o seu corpo se desfizesse em podridão e cinzas.(21) Aplica a santíssima Virgem, em sentido acomodatício, aquelas palavras da Sagrada Escritura: "Quem é esta que sobe do deserto, cheia de gozo, e apoiada no seu amado?" (Ct 8,5), e raciocina desta forma: "Daqui pode concluir-se que ela está ali corporalmente (na glória celeste)... Porque... a sua felicidade não seria plena se ali não estivesse em pessoa; ora a pessoa não é só a alma, mas o composto; logo é claro que está ali segundo o composto, isto é, em corpo e alma; de outro modo não gozaria de felicidade plena".(22)

Na escolástica posterior

33. Na escolástica posterior, ou seja no século XV, são Bernardino de Sena, resumindo e ponderando cuidadosamente tudo quanto os teólogos medievais tinham escrito a esse propósito, não julgou suficiente referir as principais considerações que os antigos doutores tinham proposto, mas acrescentou outras novas. Por exemplo, a semelhança entre a divina Mãe e o divino Filho, no que respeita à perfeição e dignidade de alma e corpo - semelhança que nem sequer nos permite pensar que a Rainha celestial possa estar separada do Rei dos céus - exige absolutamente que Maria "só deva estar onde está Cristo".(23) Portanto, é muito conveniente e conforme à razão que tanto o corpo como a alma do homem e da mulher tenham alcançado já a glória no céu; e, finalmente, o fato de nunca a Igreja ter procurado as relíquias da santíssima Virgem, nem as ter exposto à veneração dos fiéis, constitui um argumento que é "como que uma experiência sensível" da assunção.(24)

Nos tempos modernos

34. Em tempos mais recentes, as razões dos santos Padres e doutores, acima aduzidas, foram usadas comumente. Seguindo o comum sentir dos cristãos, recebido dos tempos antigos s. Roberto Belarmino exclamava: "Quem há, pergunto, que possa pensar que a arca da santidade, o domicílio do Verbo, o templo do Espírito Santo tenha caído em ruínas? Horroriza-se o espírito só com pensar que aquela carne que gerou, deu a luz, alimentou e transportou a Deus, se tivesse convertido em cinza ou fosse alimento dos vermes".(25)

35. De igual forma s. Francisco de Sales afirma que não se pode duvidar que Jesus Cristo cumpriu do modo mais perfeito o divino mandamento que obriga os filhos a honrar os pais. E a seguir faz esta pergunta: "Que filho haveria, que, se pudesse, não ressuscitava a sua mãe e não a levava para o céu?"(26) E s. Afonso escreve por sua vez: "Jesus não quis que o corpo de Maria se corrompesse depois da morte, pois redundaria em seu desdouro que se transformasse em podridão aquela carne virginal de que ele mesmo tomara a própria carne".(27)

36. Quando já tinha aparecido em toda a sua luz o mistério que se celebra nesta festa, não faltaram doutores que, em vez de tratar das razões teológicas pelas quais se demonstrasse a absoluta conveniência de crença na assunção corpórea da Virgem santíssima, voltaram o pensamento para a fé da Igreja, mística esposa de Cristo, sem mancha nem ruga (cf. Ef 5,27), que o Apóstolo chama "coluna e sustentáculo da verdade" ( 1Tm 3,15). E apoiados nesta fé comum pensaram que seria temerária, para não dizer herética, a opinião contrária. S. Pedro Canísio, como outros muitos, depois de declarar que o termo assunção se referia à glorificação não só da alma mas também do corpo, e que a Igreja há muitos séculos venerava e celebrava solenemente este mistério mariano, observa: "Esta opinião é admitida há vários séculos e tão impressa na alma dos fiéis, é tão recomendada pela Igreja, que quem negasse a assunção ao céu do corpo de Maria santíssima nem sequer seria ouvido com paciência, mas seria vaiado como pertinaz, ou mesmo temerário, e imbuído mais de espírito herético do que católico".(28)

37. Pela mesma época, o Doutor Exímio estabelecia esta regra para a mariologia: "Os mistérios da graça que Deus operou na virgem Maria não se devem medir pelas leis ordinárias, senão pela onipotência divina, suposta a conveniência do fato e a não contradição ou repugnância com as Escrituras".(29) E apoiado na fé de toda a Igreja, podia concluir que o mistério da assunção devia crer-se com a mesma firmeza que o da imaculada conceição, e já então julgava que ambas as verdades podiam ser definidas.

Fundamento escriturístico

38. Todos esses argumentos e razões dos santos Padres e teólogos apóiam-se, em último fundamento, na Sagrada Escritura. Esta nos apresenta a Mãe de Deus extremamente unida ao seu Filho, e sempre participante da sua sorte. Pelo que parece quase que impossível contemplar aquela que concebeu, deu à luz, alimentou com o seu leite, a Cristo, e o teve nos braços e apertou contra o peito, estivesse agora, depois da vida terrestre, separada dele, se não quanto à alma, ao menos quanto ao corpo. O nosso Redentor é também filho de Maria; e como observador perfeitíssimo da lei divina não podia deixar de honrar a sua Mãe amantíssima logo depois do Eterno Pai. E podendo ele adorná-la com tamanha honra, preservando-a da corrupção do sepulcro, deve crer-se que realmente o fez.

39. E convém sobretudo ter em vista que, já a partir do século II, os santos Padres apresentam a virgem Maria como nova Eva, sujeita sim, mas intimamente unida ao novo Adão na luta contra o inimigo infernal. E essa luta, como já se indicava no Protoevangelho, acabaria com a vitória completa sobre o pecado e sobre a morte, que sempre se encontram unidas nos escritos do apóstolo das gentes (cf. Rm 5; 6; lCor 15,21-26; 54-57). Assim como a ressurreição gloriosa de Cristo constituiu parte essencial e último troféu desta vitória, assim também a vitória de Maria santíssima, comum com a do seu Filho, devia terminar pela glorificação do seu corpo virginal. Pois, como diz ainda o apóstolo, "quando... este corpo mortal se revestir da imortalidade, então se cumprirá o que está escrito: a morte foi absorvida na vitória" (1Cor 15,14).

40. Deste modo, a augustíssima Mãe de Deus, associada a Jesus Cristo de modo insondável desde toda a eternidade "com um único decreto" (30) de predestinação, imaculada na sua concepção, sempre virgem, na sua maternidade divina, generosa companheira do divino Redentor que obteve triunfo completo sobre o pecado e suas conseqüências, alcançou por fim, como suprema coroa dos seus privilégios, que fosse preservada da corrupção do sepulcro, e que, à semelhança do seu divino Filho, vencida a morte, fosse levada em corpo e alma ao céu, onde refulge como Rainha à direita do seu Filho, Rei imortal dos séculos (cf. 1Tm 1,17).

Oportunidade da definição

41. Considerando que a Igreja universal - que é assistida pelo Espírito de verdade, que a dirige infalivelmente para o conhecimento das verdades reveladas - no decurso dos séculos manifestou de tantas formas a sua fé; considerando que os bispos de todo o mundo quase unanimemente pedem que seja definida como dogma de fé divina e católica a verdade da assunção corpórea da santíssima Virgem ao céu; considerando que esta verdade se funda na Sagrada Escritura, está profundamente gravada na alma dos fiéis, e desde tempos antiquíssimos é comprovada pelo culto litúrgico, e concorda, inteiramente, com as outras verdades reveladas, e tem sido esplendidamente explicada e declarada pelos estudos, sabedoria e prudência dos teólogos - julgamos chegado o momento estabelecido pela providência de Deus, para proclamarmos solenemente este privilégio insigne da virgem Maria. (42). Nós, que colocamos o nosso pontificado sob o especial patrocínio da santíssima Virgem, à qual recorremos em tantas circunstâncias tristes, nós, que consagramos publicamente todo o gênero humano ao seu imaculado Coração, e que experimentamos muitas vezes o seu poderoso patrocínio, confiamos firmemente que esta solene proclamação e definição será de grande proveito para a humanidade inteira, porque reverte em glória da Santíssima Trindade, a qual a virgem Mãe de Deus está ligada com laços muito especiais. É de esperar também que todos os fiéis cresçam em amor para com a Mãe celeste, e que os corações de todos os que se gloriam do nome de cristãos se movam a desejar a união com o corpo místico de Jesus Cristo, e que aumentem no amor para com aquela que tem amor de Mãe para com os membros do mesmo augusto corpo. E também é lícito esperar que, ao meditarem nos exemplos gloriosos de Maria, mais e mais se persuadam todos do valor da vida humana, se for consagrada ao cumprimento integral da vontade do Pai celeste e a procurar o bem do próximo. Enquanto o materialismo e a corrupção de costumes que dele se origina ameaçam subverter a luz da virtude, e destruir vidas humanas, suscitando guerras, é de esperar ainda que este luminoso e incomparável exemplo, posto diante dos olhos de todos, mostre com plena luz qual o fim a que se destinam a nossa alma e o nosso corpo. E, finalmente, esperamos que a fé na assunção corpórea de Maria ao céu torne mais firme e operativa a fé na nossa própria ressurreição.

43. E é para nós motivo de imenso regozijo que este fato, por providência de Deus, se realize neste Ano santo que está a decorrer, e que assim possamos, enquanto se celebra este jubileu maior, adornar com esta pedra preciosa a fronte da Virgem santíssima, e deixar um monumento, mais perene que o bronze, da nossa ardente devoção para com a Mãe de Deus.

Definição solene do dogma

44. "Pelo que, depois de termos dirigido a Deus repetidas súplicas, e de termos invocado a paz do Espírito de verdade, para glória de Deus onipotente que à virgem Maria concedeu a sua especial benevolência, para honra do seu Filho, Rei imortal dos séculos e triunfador do pecado e da morte, para aumento da glória da sua augusta mãe, e para gozo e júbilo de toda a Igreja, com a autoridade de nosso Senhor Jesus Cristo, dos bem-aventurados apóstolos s. Pedro e s. Paulo e com a nossa, pronunciamos, declaramos e definimos ser dogma divinamente revelado que: a imaculada Mãe de Deus, a sempre virgem Maria, terminado o curso da vida terrestre, foi assunta em corpo e alma à glória celestial".

45. Pelo que, se alguém, o que Deus não permita, ousar, voluntariamente, negar ou pôr em dúvida esta nossa definição, saiba que naufraga na fé divina e católica.

46. Para que chegue ao conhecimento de toda a Igreja esta nossa definição da assunção corpórea da virgem Maria ao céu, queremos que se conservem esta carta para perpétua memória; mandamos também que, aos seus transuntos ou cópias, mesmo impressas, desde que sejam subscritas pela mão de algum notário público, e munidas com o selo de alguma pessoa constituída em dignidade eclesiástica, se lhes dê o mesmo crédito que à presente, se fosse apresentada e mostrada.

47. A ninguém, pois, seja lícito infringir esta nossa declaração, proclamação e definição, ou temerariamente opor-se-lhe e contrariá-la. Se alguém presumir intentá-lo, saiba que incorre na indignação de Deus onipotente e dos bem-aventurados apóstolos Pedro e Paulo.

Dado em Roma, junto de São Pedro, no ano do jubileu maior, de 1950, no dia 1 ° de novembro, festa de todos os santos, no ano XII do nosso pontificado.

Eu Pio, Bispo da Igreja Católica assim definindo, subscrevi.

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

A beleza da alma de Maria - O crescimento contínuo

Obra: Mater Dolorosa,
de Luis de Morales (1509–1586)
 
PARTE III- O CRESCIMENTO CONTÍNUO

Para compreendermos bem a extensão e a intensidade deste crescimento, é preciso expor alguns princípios teológicos, que formarão a base deste admirável assunto. Reduzamo-los às quatro proposições seguintes: 

Primeira proposição: 

A inefável Mãe, teve, desde o primeiro instante de Sua Conceição, graças tão eminentes, que a menor delas era mais elevada do que a mais admirável graça do maior santo. A última pedra da cumeada do edifício de todos os santos não é mais que a pedra fundamental do templo da divindade, que é Maria. 

Segunda proposição: 

Tomamo-la emprestada de S. Bernardino de Sena: "Maria só, diz ele, teve mais graças que todos os santos e todos os anjos, e estas graças ultrapassavam, em excelência como em número, as graças reunidas de todos os homens, porque Ela era a Mãe de Deus". 

Terceira proposição: 

Sempre e até ao último suspiro de Sua vida, Maria correspondeu inteira e perfeitamente à graça, e Ela agia tão bem em toda a extensão de Suas faculdades e com tanta fidelidade, que Ela duplicava, a cada ação, as Suas virtudes e Seus méritos. 

Quarta proposição: 

É uma conseqüência das precedentes. Tendo Maria, Ela só, recebido do céu mais favores que todos os santos reunidos, segue-se que Ela era mais amada por Deus do que todas as demais criaturas. 

Eis quatro princípios incontestáveis, que elevam a Virgem imaculada acima de tudo o que existe no céu e sobre a terra, e que nos explicam a Sua plenitude de graças. 

Experimentemos, depois disto, calcular de que modo crescia sem cessar a nossa boa Mãe, em graças e em beleza, pois esta graça é como que uma luz divina que A envolve e faz d'Ela a "Bem-aventurada, a privilegiada do Altíssimo..." 

E, entretanto, esta graça, já no estado da plenitude desde a Sua Conceição, não atinge os limites de Sua perfeição; devia crescer, dia a dia, até à anunciação, o que nenhum teólogo negou nem poderia negar. 

Desde a encarnação do Filho de Deus em Seu seio, pretendem alguns, com Duns Escoto, que a graça da Virgem Mãe foi consumada em sua medida, não sendo mais susceptível de uma nova plenitude. Entretanto, Suárez, apoiando-se em São Tomás e, depois dele, em todos os teólogos, é de opinião contrária. 

Mostram eles que a graça habitual de Maria cresceu até a Sua morte, pelos atos de virtudes que Ela exercia, e pelos sacramentos que recebia. Ela cresceu em prodigiosa proporção, e o último grau, a que Ela chegou, ultrapassou toda medida. 

Vega e mais outros teólogos importantes da Santíssima Virgem julgaram que Jesus, por Sua vida de nove meses após a Sua encarnação, e depois por seu repouso em Seus braços, agia sem cessar sobre Ela "sacramentalmente", como age sobre nós a Eucaristia. 

O P. Terrien adota a mesma opinião: "O que Cristo opera nas almas dos fiéis, diz ele, dando-lhes a comer a Sua carne sob as espécies eucarísticas, deve tê-lO feito de um modo mil vezes mais eficaz, quando o corpo virginal de Sua Mãe e o Seu próprio corpo eram, num sentido incomparavelmente mais verdadeiro, um corpo único. E este corpo do Cristo permaneceu nove meses encerrado no seio de Maria perpétuamente no ato de uma amorosa ação de graças. Que comunhão e que frutos!" (Maria, Mãe de Deus, t. II, p. 244) 

Assim como a chama transforma em si tudo o que nela toca, o Verbo divino, pelo contato imediato e contínuo de Sua divindade, imprimiu de tal modo Sua perfeição em Sua Mãe Santíssima, que Ele A transformou toda em santidade, em amor e caridade. 

De fato, como não se tornaria um fogo de amor Aquela que em si contém o Deus que se chama: "Amor e fogo devorador"? 

Escutemos São Tomás de Vilanova: "Das graças passemos agora às virtudes. Mas que podemos nós dizer a este respeito, se Deus favoreceu Maria Santíssima, tanto quanto o pode ser uma criatura?... Assim, pois como no dia da criação o Omnipotente tinha reunido no homem todas as magnificências da natureza, para fazer dele o rei do universo, Ele concentrou no coração da bem-aventurada Virgem todas as perfeições que brilham na santa Igreja e nos eleitos que estão no céu. As virtudes que louvamos em cada um deles em particular, honramo-las todas ao mesmo tempo em Maria. Nela admiramos a paciência de Jó, a mansidão de Moisés, a fé de Abraão, a castidade de José, o zelo de Elias. Nela brilham a pureza dos anjos, a força dos mártires, a piedade dos confessores, a ciência dos doutores, a mortificação dos anacoretas". (Sermo3 de Nat. B. Vir.) 

E ajunta ainda o mesmo santo: "Encontravam-se reunidos em Maria os sete dons do Espírito Santo, indicados pelo próprio Isaías (11,21) e os demais dons particulares concedidos para a utilidade do próximo, tais como os menciona o apóstolo das nações, na sua primeira epístola aos fiéis de Corinto" (I Cor 12,7 ss). 

"Eis por que os santos padres costumam dizer que Maria é este palácio construído pela sabedoria divina, e sustentado por sete colunas, querendo deste modo significar os sete dons do Espírito Santo que, como pilares inequebráveis, serviam de apoio a esta morada inteiramente celestial." (Cfr.Prov. 9,1. S. Ildef. serm. 3 de Assumpt) 

E quem dirá o número de atos de virtude que praticou Maria para pôr em prática estes tesouros da graça? Ele supera as areias do mar e as gotas de água do oceano!... 

Não se passou sequer uma hora, nem um minuto, nem um segundo, quer durante o sono, quer durante o dia, sem que Ela não aumentasse os Seus méritos. Quanto aos méritos dos atos de virtude, depende sobretudo da perfeição substancial destes mesmos atos. Mais excelente é a virtude em seu objeto, mais meritório é o ato desta virtude. 

Ora, foi tal a perfeição dos atos que a Virgem Mãe devia produzir, que nada se pode imaginar de mais perfeito. 

Que resignação! Que força, que heroísmo precisava ter a alma de Maria para manter-se intrépida sob a aluvião de provações que sobre Ela se desencadeou, com uma persistência que só foi igualada pelo Seu amor a Jesus e o Seu desejo de Se assemelhar a Ele! 

Depois que a espada Lhe atravessou a alma a primeira vez, na ocasião da predição de Simeão, até ao último suspiro de Seu divino Filho, quantas virtudes, que imenso e incessante heroísmo Ela devia praticar! 

Disso falaremos, e basta-nos recordá-lo, para compreendermos a razão do crescimento contínuo que n'Ela teve a graça. 

O aumento da santidade e dos méritos está ainda em relação com o fervor dos atos, com a caridade que os anima e a intenção e o desejo de agradar a Deus. 

Deus, diz um piedoso autor (Petitalot), olha menos o que nós fazemos do que o amor com que o fazemos; a caridade é o mais eminente dos dons celestes, a plenitude da lei e a perfeição da virtude. Daí conclui-se que todos os atos da bem-aventurada Virgem - embora tivessem eles sido substancialmente imperfeitos e indiferentes em si mesmos - teriam sido ainda dum valor quase incalculável por causa da caridade perfeita de que procediam. 

Nenhuma ação exterior da Virgem, assim como nenhum dos Seus movimentos deixou de ser meritório e interior, pois Ela agia sempre com toda a força da graça, com o hábito da caridade; cooperava inteiramente aos socorros divinos, e retribuía a Deus, o quanto possível, amor por amor. 

Além desta primeira e principal causa da graça sempre crescente em Maria, que os teólogos chamam - ex opere operantis - há ainda uma outra, que produz esta graça "ex opere operato". 

E a santidade produzida deste modo multiplicou-se em Maria em três modo, como nos indica Suárez: 

1. Pelo remédio empregado na lei antiga, contra o pecado original, e que conferiu a Maria um novo grau de graça. 

2. Por gratificações divinas em certas circunstâncias, como na natividade de Nosso Senhor, em Sua morte, em Sua ressurreição, na descida do Espírito Santo, etc. 

3. Pelos sacramentos da nova Lei, que Maria podia receber, tais como o batismo, a Eucaristia, a confirmação, e talvez, até a extrema-unção. 

Pelo batismo, a Virgem, embora já inteiramente imaculada, recebeu o direito aos outros sacramentos. 

Pela Eucaristia, que Ela recebia todos os dias, com o privilégio de conservar em Seu coração a sagrada hóstia de uma comunhão a outra. Não tendo ainda Nosso Senhor um tabernáculo, em que se conservasse o Seu corpo sagrado, e querendo Ele permanecer perpetuamente, sem interrupção, entre nós, fez do coração de Maria o Seu primeiro tabernáculo e o Seu primeiro cibório. 

Pela confirmação, que a Imaculada recebeu no dia de Pentecostes, com os apóstolos. Embora essa confirmação não fosse ainda o sacramento propriamente dito, encerrava, entretanto, toda a virtude desse sacramento. 

Pela extrema-unção, enfim, embora haja quem o contradiga. Entretanto, Santo Alberto Magno, Santo Antonino e Suárez sustentam que Ela a recebeu, porque a forma deste sacramento não supõe necessariamente que haja faltas, mas apaga aquelas que há e aumenta a graça quando não há faltas. 

Ó Maria, crescendo Vós sem cessar em graça e em beleza sobrenatural, possa Vossa beleza sempre crescente deslumbrar os nossos corações, cativá-los e torná-los capazes de também crescerem incessantemente em graça e em amor!...
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Excerto do livro Por que amo Maria, de Padre Júlio Maria, Missionário de Nossa Senhora do Santíssimo Sacramento (1945)
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A Tradição é linda.

A Tradição é linda.

Palavras de Santo Agostinho

"A oração é uma chave do céu; sobem as preces, desce a divina misericórdia. Por mais baixa que seja a Terra, e alto o Céu, Deus ouve a língua do homem, quando este tem limpa a consciência."