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sexta-feira, 23 de junho de 2017

Festa do Sagrado Coração de Jesus - leituras completas


FESTA DO SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS
(Na sexta-feira depois da oitava do Corpus Christi)

Dia marcado por Cristo Senhor Nosso, a Santa Margarida Maria (1647-1690) 

E, para bendizer, esta festa a do Amor de Jesus Cristo. Intentou o Divino Salvador, com esta solenidade, mover-nos o coração a pagar-Lhe enfim, amor com amor.

Por isso, neste dia oferece a nosso culto seu coração adorando, como símbolo de sua divina caridade. 
Figurai-vos hoje, Cristo Senhor Nosso na Eucaristia, na forma em que apareceu a Santa Margarida; mostrando-lhe seu coração bendito em meio de chamas, cruelmente traspassado, de espinhos coroado, encimado de cruz; pungentes emblemas do seu amor, e de quanto O magoou a ingratidão dos homens.
Rogai a Jesus se digne revelar-vos, e no coração vos estranhe o extremo de seu amor, o excesso da ingratidão vossa, que nisto se cifra a presente devoção: amor, desagravo. 
Avivai vosso amor e zelo, provai a Jesus que temos ainda corações nobres e agradecidos. Ouvi hoje missa com essa intenção, comungai com dobrado fervor.
Como desagravo e consagração ao Sagrado Coração de Jesus, renovai as promessas do batismo, com um hora de visita ao mesmo, no seu Sacramento de Amor.
Que quadro, ó Doce Coração do meu Jesus! Uma coroa de espinhos, uma larga ferida, uma cruz! Que insigne para o coração mão amável, mais terno e generoso!
Ai! Que obra foram esta cruz, estes espinhos, esta chaga, do meu orgulho, dos meus insofrimentos, das minhas sensualidades, da minha indiferença!
Indigno sou, ó Jesus! De chegar-me ao Vosso coração benigno; nele porém a esperança tenho, e minha salvação!
Dignai-vos de aceitar o meu, de vós indigno, é certo; mas, contrito está e humilhado, ama-vos, amar-vos quer ainda mais do que Vos ofendeu; ditoso seria se vos pudera amar por todos que vos não amam! 
Recebei , Senhor, meu desejos, e atendei-os para eterna glória da vossa misericórdia, bendito Jesus meu!

Amor ao Sagrado Coração de Jesus

Ó coração, vítima de amor!
Dos Céus gozo perene,
Consolo dos mortais,
Dos mortais esperança suprema!
Doce coração amabilíssimo,
Por amor de nós ferido,
De amor por nós ferido também,
De mim tem piedade.
A todos aberto
Em teu Sangue lavados:
Asilo nosso profundo serás,
Refúgio seguro.
Coração de Jesus amantíssimo,
Das almas puras amigo,
Das almas puras amado,
Sobre todos os corações reina.
Amém.

Introito (Cant. c. 3, Egredimini, etc.)

Sai, ó filhas de Sião, e vede o Rei Salomão com o diadema com que sua mãe o coroou no dia do seu casamento, e no dia do júbilo do seu coração. Ps. 44. Meu coração proferiu com alegria uma boa palavra: ao Rei dedico minhas obras.

Oração

Fazei, Senhor Jesus Cristo, com que nos vistamos das virtudes, e nos inflamemos com os afetos do vosso Santíssimo Coração, para que mereçamos ser conformes a imagem de vossa bondade e participar do fruto da Redenção. Que viveis e reinais. 

Epístola (Ephes. c. III)

"8.A mim, o mais insignificante dentre todos os santos, coube-me a graça de anunciar entre os pagãos a inexplorável riqueza de Cristo, 9.e a todos manifestar o desígnio salvador de Deus, mistério oculto desde a eternidade em Deus, que tudo criou. 10.Assim, de ora em diante, as dominações e as potestades celestes podem conhecer, pela Igreja, a infinita diversidade da sabedoria divina, 11.de acordo com o desígnio eterno que Deus realizou em Jesus Cristo, nosso Senhor. 12.Pela fé que nele depositamos, temos plena confiança de aproximar-nos junto de Deus. 13.Por isso vos rogo que não desfaleçais nas minhas tribulações que sofro por vós: elas são a vossa glória. 14.Por esta causa dobro os joelhos em presença do Pai, 15.ao qual deve a sua existência toda família no céu e na terra, 16.para que vos conceda, segundo seu glorioso tesouro, que sejais poderosamente robustecidos pelo seu Espírito em vista do crescimento do vosso homem interior. 17.Que Cristo habite pela fé em vossos corações, arraigados e consolidados na caridade, 18.a fim de que possais, com todos os cristãos, compreender qual seja a largura, o comprimento, a altura e a profundidade, 19.isto é, conhecer a caridade de Cristo, que desafia todo o conhecimento, e sejais cheios de toda a plenitude de Deus."
Gradual (Matheus, c. 21)
Dizei a filha de Sião: Eis aí teu Rei que a ti vem, cheio de doçura. V. Isaías, c. 42. A ninguém aterrará com a tristeza do rosto, nem será apressada em castigar; não clamará fora sua voz.
Aleluia, aleluia. V. Mateus c. 11. Aprendei de mim que sou manso e humilde de coração, e paz encontrareis para vossas almas. Aleluia.

Depois da Septuagésima

Gradual (Ps. 68)
Improperios e misérias afrontarão meu coração, e esperei que alguém comigo se entristecesse, mas não houve; e quem me consolasse, e não achei. 

Tracto (Ps. 21)
Enquanto a mim, sou um verme e não um homem: o próprio dos homens e a abjeção do povo. V. Todos os que me virão zombarão de mim, murmurarão e menearão a cabeça. V. Como água me derramei, e todos os meus ossos se desconjuntarão. V. Como cera derretida se tornou meu coração em minhas entranhas.

No tempo Pascal

Aleluia, aleluia. V. Ps. 29. Senhor meu Deus, a Vós clamei e me sarastes: minha alma tirastes do inferno, aleluia. V. Meu pranto convertestes em gozo; rasgastes meu saco e me enchestes de alegria. Aleluia.

Evangelho (João, c. XV)

"9.Como o Pai me ama, assim também eu vos amo. Perseverai no meu amor. 10.Se guardardes os meus mandamentos, sereis constantes no meu amor, como também eu guardei os mandamentos de meu Pai e persisto no seu amor. 11.Disse-vos essas coisas para que a minha alegria esteja em vós, e a vossa alegria seja completa. 12.Este é o meu mandamento: amai-vos uns aos outros, como eu vos amo. 13.Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida por seus amigos. 14.Vós sois meus amigos, se fazeis o que vos mando. 15.Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz seu senhor. Mas chamei-vos amigos, pois vos dei a conhecer tudo quanto ouvi de meu Pai. 16.Não fostes vós que me escolhestes, mas eu vos escolhi e vos constituí para que vades e produzais fruto, e o vosso fruto permaneça. Eu assim vos constituí, a fim de que tudo quanto pedirdes ao Pai em meu nome, ele vos conceda."
Ofertório (I Paral. c. 29)

Senhor, meu Deus, na singeleza do meu coração alegre, tudo vos ofereci, e vi que vosso povo com grande júbilo vos ofertava seus dons. Deus de Israel, conservai esta boa vontade em seus corações. Aleluia.

Secreta 

Nós vos pedimos, Senhor, que o Espírito Santo nos inflame com aquele fogo que, do íntimo do seu coração Nosso Senhor Jesus Cristo enviou a terra e quis que em nós veementemente se acendesse.

Comunhão (Ps. 33)

Gostai e vede quanto o Senhor é suave; sua misericórdia durará eternamente. Aleluia. 

Post-Comunhão 

Comuniquem-nos vossos divinos mistérios, Senhor Jesus, o santo fervor com que, sentindo a doçura de vosso Santíssimo Coração, aprendamos a desprezar as coisas terrenas e amar as celestes. Por Nosso Senhor Jesus Cristo.

***

Viva Cristo Rei!!!
Salve Maria Rainha!!!

***

Goffiné, 1910

quarta-feira, 21 de junho de 2017

São Luiz Gonzaga

– Então, o que faremos, Irmão Luís? – perguntou o Padre Provincial, ao entrar no quarto do enfermo.
– Estamos a caminho, Padre.
– Para onde?
– Para o Céu… Se não impedirem meus pecados, espero, pela misericórdia de Deus, ir para lá.Esta era a disposição de alma do jovem noviço da Companhia de Jesus, que interrompera seus estudos de Teologia por força de uma grave doença e há três meses jazia prostrado no leito. Oito dias antes, predissera que estes seriam para ele os últimos.

“Morrerei esta noite”

Já pela manhã, pediu o Viático, o qual só lhe foi trazido à tarde, por julgarem-no ainda com saúde. Passou o dia em atos de fé, petição e adoração. Os padres jesuítas não se consolavam por perder o santo irmão, e tentavam persuadi-lo de que sua hora ainda não chegara. Ele, inflexível, respondia:

– Morrerei esta noite. Morrerei esta noite.

Padres e noviços de todas as casas, tendo sabido da predição de sua morte, acorreram para despedir-se dele, encomendar-se às suas orações e pedir seus últimos conselhos. A doença minara-lhe a saúde do corpo, mas a alma a cada momento crescia em santidade. Assim, atendia a todos com afeto, prometendo lembrar-se deles no Céu.

Tendo anoitecido e vendo o Padre Reitor que Luís ainda falava com facilidade, concluiu que não morreria nessa noite e deu ordem aos irmãos para se recolherem a dormir. Ficaram no quarto apenas dois sacerdotes para auxiliar o enfermo, além do seu confessor, São Roberto Belarmino.

Luís não escondia sua profunda alegria. Ir para o Céu, unir-se definitivamente com Deus: era o que mais almejara durante sua curta vida!

Passado algum tempo, disse ao confessor:

– Padre, podeis fazer a encomendação.

O sacerdote logo a fez, com muita compenetração e devoção. Recolhido, calmo e confiante, Luís aguardava o momento supremo, o qual não tardou: por volta das vinte horas, com os olhos fixos no crucifixo que segurava em suas mãos, entrou serenamente nas terríveis dores da agonia. Nenhum gemido lhe saiu dos lábios, seu olhar não se desviou um instante sequer d’Aquele que tanto sofrera por nós na Cruz. Pronunciando o Santíssimo Nome de Jesus, entregou sua alma a Deus na mais inteira paz.

O perfeito pensa constantemente em Deus

Luís Gonzaga era dessas almas diletas, sobre as quais Deus derrama graças e dons em superabundância para mantê-las na inocência. Altíssimo foi o grau de santidade alcançado por ele nessa via. Nada de terreno o atraía, vivia em contemplação e todas as suas ações estavam em conformidade plena com os desígnios divinos.

Eis como o famoso dominicano Padre Garrigou-Lagrange descreve uma alma nesse estado de perfeição:

“Depois da purificação passiva do espírito, os perfeitos conhecem a Deus de uma maneira quase experimental, não mais passageira, porém quase contínua. Não somente durante as horas da Missa, do Ofício Divino ou demais orações, mas também no meio das ocupações exteriores, sua alma permanece voltada para Deus. Por assim dizer, eles não perdem sua presença e guardam a união atual com Ele.

” C o m p r e e n d e r e m o s com facilidade a questão se a analisarmos em contraposição ao estado de alma do egoísta. Este pensa sempre em si mesmo e, naturalmente, refere tudo a si; entretém-se sem cessar consigo mesmo sobre suas veleidades, suas tristezas, ou suas superficiais alegrias; sua conversa íntima, por assim dizer, é incessante, mas vã, estéril e esterilizante para todos. O perfeito, ao contrário, em lugar de pensar em si, pensa constantemente em Deus, em Sua glória, na salvação das almas e, para isso, faz tudo convergir para este objetivo, como por instinto. Sua conversa íntima não é consigo mesmo, mas com Deus”.

Vejamos alguns episódios da existência terrena, breve, mas pervadida de santidade, de São Luís Gonzaga, que refletem bem sua inocente alma.

Retidão desde a infância

Nasceu em 9 de março de 1568, no castelo de Castiglione, Itália. Foi o primeiro filho de Dom Fernando Gonzaga, Marquês de Castiglione e Príncipe do Sacro Império, e de Dona Marta Tana, dama da Rainha Isabel de Valois.

Muito agradava à marquesa ver quão bem seu filho assimilava, desde pequeno, suas maternais instruções de piedade. Seu pai, porém, se inquietava, pois temia que a devoção o desviasse da carreira das armas, à qual se destinavam os primogênitos.

Quando Luís tinha cinco anos de idade, o marquês recebeu ordem de partir para Túnis à frente de três mil homens da infantaria italiana e, devendo passar em revista as tropas na cidade de Casalmaior, levou-o consigo, para acostumá-lo ao sabor das armas. Passou o menino lá alguns meses e, na convivência com a soldadesca, aprendeu algumas palavras indecorosas, as quais passou a repetir, sem saber seu significado.

De volta a Castiglione, foi repreendido por seu preceptor, e não apenas nunca mais proferiu tais palavras, mas manifestava grande enfado quando ouvia alguém pronunciá-las. Muito se envergonhou por essa falta e, quando já religioso, costumava contá-la para “provar” como fora mau desde criança.Devoção a Maria e virtudes exemplares

Quando Luís fez nove anos de idade, Dom Fernando o levou, juntamente com seu irmão Rodolfo, para a corte do Grão-duque da Toscana. A Providência Divina utilizou esses dois anos em que ele viveu em Florença para fazê-lo progredir nos caminhos da santidade. A leitura de um livro sobre os mistérios do Rosário fez desabrochar em sua alma a devoção a Maria Santíssima.

Contribuiu também para tal a fervorosa devoção a Nossa Senhora da Anunciata, venerada nessa cidade. Tanto se lhe inflamou o coração pela Virgem que quis oferecer a Ela seu voto de virgindade.

As diversas virtudes já eram robustas em sua alma. Adquirira uma completa guarda dos sentidos, uma obediência total aos superiores, além de um profundo recolhimento de alma e elevação de espírito.

Deus rapidamente construía a bela catedral da alma de Luís, o qual, com a simplicidade de uma criança, deixava-se conduzir pelo Pai celestial. Tendo passado para a corte de Mântua, não só conservou os hábitos de oração, mas sublimou-os pelas práticas de mortificação. Obrigado pelos médicos a seguir uma dieta alimentar, para curar-se de uma enfermidade, tomou tal gosto pela penitência que, ultrapassando as receitas indicadas, entregou-se aos mais rigorosos jejuns. Considerava ter feito uma lauta refeição quando comia um ovo inteiro!

Intensa vida sobrenatural

De volta ao solar paterno, foi cumulado de graças místicas extraordinárias. Quando se punha a considerar os atributos divinos, experimentava uma tão grande consolação que derramava lágrimas suficientes para empapar vários lenços. Algumas vezes ficava tão arrebatado que perdia completamente os sentidos exteriores. Sua mente estava toda posta no sobrenatural, e sobre as coisas de Deus versavam todas as suas palavras.

Em 1580, chegou a Castiglione o Cardeal Carlos Borromeu, Visitador Apostólico do Papa Gregório XIII. Muito se admirou o Cardeal por ver como aquele pequeno “anjo” discorria sobre os temas da Religião. No final de duas horas de conversa com ele, decidiu o Cardeal dar-lhe por primeira vez a Sagrada Eucaristia.

Aos treze anos de idade sentiu o chamado religioso. Por ser ainda muito jovem, nada comunicou a seus pais, mas redobrou suas austeridades. Aboliu o uso da lareira em seu quarto; levantava-se de madrugada e, de joelhos, rezava durante longo tempo, mesmo durante os rigores do inverno lombardo.

Cada vez mais inquieto à vista dos progressos do filho na trilha da piedade, o Marquês de Castiglione decidiu, para distraí-lo, dirigir-se com toda a família para Madri e colocá-lo como pajem do filho do rei Felipe II. Luís, entretanto, com a alma ancorada em Deus, permaneceu firme e resoluto em seus propósitos, no meio dos prazeres e honras da corte.

Conquista da permissão paterna

“Para qual ordem religiosa sou chamado?” – perguntava-se o jovem pajem. Optou pela Companhia de Jesus. Além da nobre função do ensino à qual esta se dedicava, motivou essa escolha o fato de os jesuítas serem proibidos, pela regra, de ascender a qualquer cargo, salvo se por ordem direta do Papa. Assim, renunciaria para sempre não só às honras do mundo, mas também às eclesiásticas.

Gritos de cólera e ameaças de açoites foi a resposta do marquês ao pedido de seu filho para entregar-se a Deus, na Ordem fundada por Santo Inácio. Usou de sua influência para conseguir que algumas altas dignidades eclesiásticas tentassem dissuadi-lo de sua vocação, ou ao menos fazê-lo entrar por um caminho que conduzisse às possíveis honras do cardinalato. Não tiveram sucesso
maior que o das ondas furiosas do mar sobre a rocha. Pediu-lhe o pai, então, que esperasse a volta à Itália para decidir. Não podia se conformar em perder aquele filho tão dotado, no qual pusera toda a esperança da principesca casa dos Gonzaga.

Começou, então, um período de dois árduos anos de luta para conquistar a permissão paterna de abandonar tudo e seguir a Cristo. Foi a mais dura – e talvez a mais gloriosa – fase de sua vida. Essa luta encerrou-se com um episódio comovedor: certo dia o marquês, olhando pelo buraco da fechadura do quarto de seu filho, viu-o ajoelhado e se flagelando. Só então dobrou-se e lhe deu a tão almejada autorização.

A alegria de entrar na casa do Senhor

“Que alegria quando me vieram dizer: vamos subir à casa do Senhor!” (Sl 121, 1). Chancelada pelo imperador a renúncia pública a seus direitos de filho primogênito, entrou Luís no noviciado da Companhia de Jesus, em Roma. Em todos os lugares por onde passou, o nobre religioso deixou atrás de si o suave aroma de suas virtudes. Despojou-se de tudo quanto podia lembrar sua antiga condição, buscando para si as humilhações e o último lugar. Chegava a enrubescer de vergonha ao ouvir elogios à nobreza de sua família.

Os noviços disputavam lugar a seu lado nas horas de recreação, pelo prazer de participar de suas elevadas conversas. E consideravam seus objetos pessoais como verdadeiras relíquias. No estudo de Filosofia e Teologia, mostrou-se tão sábio que defendeu, com aplausos, uma tese diante de três Cardeais e outras autoridades. Vendo seus superiores o valor da joia que tinham em mãos e, ao mesmo tempo, a fragilidade de sua saúde, multiplicaram os desvelos por ele. Recorreram em vão a uma mudança de ares, na esperança de que lhe faria bem. À vista do insucesso dessa terapêutica, o Padre Reitor deu-lhe ordem de, por um determinado período, não se deter em pensamentos elevados, pois talvez estes o estivessem prejudicando…
Permitiu a Providência esse equívoco para fazer brilhar mais ainda as qualidades de alma daquele “anjo”. Dessa vez a obediência, por ele tão amada, custou-lhe grandes esforços: sair de seu constante estado de oração – confessou a um de seus companheiros – era um enorme tormento, pois, mal se distraía, seu pensamento voava para a consideração dos mistérios divinos.
Luís Gonzaga era dessas almas diletas, sobre as quais Deus derrama graças e dons
em superabundância para mantê-las na inocência



Primeira Comunhão de São Luís Gonzaga – Igreja dos Jesuítas – Paris


Vítima da caridade

Em 1591, sua caridade para com o próximo encontrou uma ótima ocasião para expandir-se até o heroísmo: atender as pobres vítimas da peste que assolava a Cidade Eterna. Não tardou, porém, em ser ele próprio contagiado. Mas Deus, que decidira colher tão cedo este viçoso lírio, não quis levá-lo antes de ele espargir seus últimos perfumes. Três meses de uma febre ardente, aceita com total abnegação, encerraram os 23 anos de sua permanência na Terra.

Seu confessor, São Roberto Belarmino, afirmou que São Luís tinha levado uma vida perfeita e fora confirmado em graça. Mais tarde, declararia Santa Madalena de Pazzi, a propósito de uma visão que tivera da glória imensa da qual gozava no Céu este filho de Santo Inácio de Loyola: “Enquanto viveu, Luís manteve seu olhar sempre atento em direção ao Verbo, e é por isso que ele é tão grande. […] Oh! Quanto ele amou na terra! É por isso que hoje no Céu possui Deus numa soberana plenitude de amor”. Luís Gonzaga foi beatificado por Paulo V, em 1605, e canonizado a 13 de dezembro de 1726, por Bento XIII, quem o declarou padroeiro da juventude.

Modelo de santidade no amor

“No entardecer de nossa vida, seremos julgados segundo o amor”. É para esse amor, em uma entrega total, que Deus nos chama desde a juventude, tal qual o fez ao moço rico do Evangelho: “Vem e segue-Me!” (Mt 19, 21). Que a juventude atual – tão carente de modelos a seguir e tão confundida acerca do amor – não tome a atitude do moço rico, entristecendo-se por ter de desapegar-se das coisas do mundo, mas reencontre o exemplo de seu patrono, São Luís Gonzaga. A isso a incentivou o saudoso Papa João Paulo II, dirigindo-se aos jovens de Mântua: “São Luís é sem dúvida um santo a ser redescoberto em sua alta estatura cristã. É um modelo indicado também à juventude de nosso tempo, um mestre de perfeição e um experimentado guia no caminho da santidade. ‘O Deus que me chama é Amor, como posso circunscrever este amor, quando para isto seria pequeno demais o mundo inteiro?’- lê-se em uma de suas anotações”. 
__________
(Revista Arautos do Evangelho, Junho/2010, n. 102, p. 34 à 37)

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Santa Juliana de Falconieri, Virgem


Nasceu Juliana em 1270, filha de Caríssimo e Ricordata. Caríssimo era irmão de santo Alexis Falconieri, um dos fundadores dos Servitas. Caríssimo tornou-se muito rico, por sua habilidade comercial; temendo não ter ganho honestamente as suas posses, pediu ao papa Urbano IV a absolvição geral e empregou os seus haveres em boas obras. Era bem idoso já, quando lhe nasceu Juliana. As primeiras palavras que a menina pronunciou foram Jesus e Maria. Caríssimo morreu pouco tempo depois.

Desde 1284, recebeu o hábito de terceira na Congregação dos Servitas, dado por São Filipe Benício. Durante um ano foi objeto de admiração para sua família e para sua mãe. Na presença de São Filipe fez ainda a sua profissão; pouco tempo depois ele faleceu, não sem recomendar-lhe a Congregação toda, mas particularmente as Irmãs.

Há muito tempo Juliana conhecia os instrumentos de penitência; jejuava às quartas e sextas-feiras, não recebendo senão a santa comunhão; aos sábados comia apenas um pouco de pão e tomava água, e passava o dia a contemplar as sete dores de Maria; a sexta-feira era consagrada aos mistérios da paixão do Senhor, em honra dos quais se flagelava até o sangue.

Após a morte de sua mãe, ocupou-se em reunir aquelas que, querendo se consagrar a Deus como ela, até então tinham vivido nas casas de suas famílias. Uma vez todas instaladas na casa, ela própria quis pedir a admissão, de pés nus e com uma corda ao pescoço, batendo à porta.

O papa Bento XI, em 1304, declarou essa Congregação verdadeira Ordem religiosa. Dois anos mais tarde, Juliana aceitou ser superiora. Tendo viva consciência de que aquele que está mais altamente colocado deve ser o servo dos outros, procurava sempre os trabalhos mais humildes. Dormia pouco, estendida sobre chão nu; suas orações, que duravam até um dia inteiro, obtiveram-lhe a graça e a força de resistir às mais abomináveis tentações. Pacificou discórdias civis, interessou-se pelos pobres e pelos doentes, que ela curava ao contato de suas mãos.

No fim de sua vida, por causa de doença do estômago, não suportou mais alimento algum, nem mesmo a comunhão. Na hora da morte, não podendo receber o viático, suplicou ao P. Tiago de Campo Regio que lhe trouxesse ao menos o cibório em sua cela; ela se estendeu então por terra, e com os braços em cruz, quis que um corporal fosse estendido sobre o seu peito e que a santa hóstia fosse aí depositada; esta, assim que foi depositada, desapareceu misteriosamente, e Juliana morreu dizendo: “Meu doce Jesus” (19/6/1341).

Por ocasião da toalete fúnebre, encontrou-se sobre o coração da santa, a marca da hóstia como um selo, com a imagem de Jesus crucificado. O Senhor, que ela tanto desejara receber, tinha-a escutado para além de toda esperança. Em memória desse milagre, as “Mantellate” trazem sobre o lado esquerdo do escapulário a imagem de uma hóstia.

Exemplo das Irmãs Mantelatte Servitas de Maria

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Santa Lutgarda de Aywières

Santa Lutgarda, pintada por Goya (1787)

Santa Lutgarda nasceu em Tongres, Holanda, em 1182. Aos doze anos de idade foi recomendada às monjas beneditinas do Convento de Santa Catarina, próximo de Saint-Trond, não por piedade, mas porque o dinheiro para seu dote matrimonial havia sido perdido por seu pai. Era o costume da época. 

Lutgarda era bonita e gostava de divertir-se sadiamente e de vestir-se bem. Não aparentava ter vocação religiosa; vivia no convento como uma espécie de pensionista, livre para entrar e sair. 

Um dia, porém, enquanto conversava com umas pessoas amigas, teve uma visão de Nosso Senhor Jesus Cristo que lhe mostrava suas feridas e lhe pedia que amasse somente a Ele. Lutgarda naquele dia descobriu o amor de Jesus e o aceitou no mesmo instante como seu Prometido. Desde aquele momento sua vida mudou. Algumas monjas, que observaram a mudança em Lutgarda, vaticinaram que aquilo não duraria. Enganaram-se, pois seu amor por Jesus crescia. 

Ao rezar, Lutgarda O via com seus olhos corporais, falava com Ele de forma familiar. Quando a chamavam para algum serviço ela dizia a Jesus: "Espere-me aqui, meu Senhor; voltarei logo que termine esta tarefa". Teve também visões de Santa Catarina, a padroeira de seu convento, e de São João Evangelista. Às vezes durante seus êxtases erguia-se um palmo do solo ou sua cabeça irradiava luz. 

Participava misticamente dos sofrimentos de Jesus quando meditava sobre a Paixão. Nessas ocasiões apareciam em sua fronte e em seus cabelos minúsculas gotas de sangue. Seu amor se estendia a todos de maneira que sentia como próprias as dores e penúrias alheias. 

Depois de doze anos no Convento de Santa Catarina, sentiu-se inspirada a abraçar a regra cisterciense que é mais estrita. Seguindo o conselho de sua amiga Santa Cristina, que era do seu convento, ingressou no Convento Cisterciense de Aywières. Ali só se falava o francês, idioma que ela desconhecia, mas era para ela uma forma de maior desapego do mundo. 

Certa ocasião, quando rezava oferecendo veementemente sua vida ao Senhor, arrebentou-se uma veia que lhe causou uma forte hemorragia. Foi-lhe revelado que no Céu aquilo fora aceito como um martírio. 

Tinha o dom de cura de enfermos, de profetizar, de entender as Sagradas Escrituras, de consolar espiritualmente. Segundo a Beata Maria de Oignies, Lutgarda é uma intercessora sem igual para os pecadores e as almas do purgatório. 

Visões do Sagrado Coração de Jesus 

Em uma ocasião, Nosso Senhor lhe perguntou que presente ela desejava. Ela respondeu: "Quero Teu Coração", ao que Jesus respondeu: "Eu quero teu coração". Aconteceu então algo sem precedentes conhecidos: Nosso Senhor misticamente trocou corações com Lutgarda. 

Onze anos antes de morrer Santa Lutgarda perdeu a visão, fato que recebeu com gozo, como uma graça para desprender-se mais de tudo. Mesmo cega jejuava severamente. O Senhor lhe apareceu para anunciar sua morte e as três coisas que devia fazer para preparar-se: 

1 - dar graças a Deus sem cessar pelos bens recebidos; 
2 - rezar com a mesma insistência pela conversão dos pecadores; 
3 - em tudo confiar unicamente em Deus. 

Sua morte ocorreu na noite do sábado posterior à Festa da Santíssima Trindade, precisamente quando começava o oficio noturno do domingo. Era o dia 16 de junho de 1246. 

Foi beatificada e o seu túmulo, no coro de Aywières, foi objeto de grande devoção. 

No dia 4 de dezembro de 1796, para escapar às conseqüências da Revolução Francesa, a comunidade se refugiou em Ittre com as relíquias da Santa, exumada no século XVI. 

Em 1870 os preciosos despojos tornaram-se propriedade da igreja paroquial e, sete anos depois, passaram para Bas-Ittre.
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A Salvação: Como alcançar?

S. Padre Pio dando a Sagrada Comunhão

"Suponhamos um homem que vive aqui na terra, sabendo, portanto, que um dia há de morrer. De vez em quando vem à sua procura o Rei dos céus, que sempre lhe está propondo uma ótima ideia: deixar esta terra e ir para o céu, um lugar maravilhoso, onde se tem a vida eterna. Afinal um dia se resolve a aceitar a proposta. Quer ir para o reino deslumbrante de imensas riquezas, onde se vive eternamente a verdadeira vida, a vida bem aventurada.

- Que devo fazer para chegar até o Céu? - Pergunta ele.

- Bem, diz-lhe o Rei dos céus, o céu é lá em cima, você não pode chegar até lá, se continua a caminhar aqui com seus pés fincados na terra. Tem que subir, tem que tomar um avião. 

- A empresa já se está tornando mais difícil. Onde hei de ir conseguir este avião?

- É muito fácil. Você dá comigo algumas passadas e um pouco mais adiante, eu lhe darei um belo avião de presente, para que você possa subir aos céus. Não lhe custa nada; porque este avião eu já o paguei e por muito bom preço. E há também uma coisa: você é quem vai dirigi-lo.

Paremos, aqui um pouco a nossa alegoria para explicar logo os seus símbolos. O homem que vive aqui na terra simboliza aquele que se acha em estado de pecado mortal. Enquanto ele está aqui na terra, isto é, enquanto está em pecado; o fim que o está aguardando é a morte, que no caso representa a morte da alma, ou seja, a condenação eterna. Aqueles primeiros encontros com o Rei dos céus simbolizam a graça atual que procura iluminar, comover e atrair a alma do pecador. O dia em que se resolve a seguir a sua viagem é o dia em que se resolve a seguir a Cristo para ganhar o céu. O avião que ele deve tomar é a graça santificante, que o eleva a uma grandeza sobrenatural, que faz o homem subir, altear-se acima de sua própria natureza, e só assim com a graça santificante é que o homem está em marcha para o céu; enquanto não a possui, ele está na terra, ou melhor no lodo, está em pecado, e não está fazendo nada para a conquista da vida eterna. 

As poucas passadas que o homem dá até alcançar o avião representam as disposições necessárias para o homem receber a graça como são a fé, o arrependimento, a esperança etc, unidas ao batismo, se é um adulto que o recebe, ou à absolvição sacramental, se já foi batizado em criança. Ele vai dirigir, porque desde que é livre, ele próprio é que deve encaminhar-se para o céu. Se é uma criança que o recebe, não precisa dar passada alguma para alcançar o avião; graças ao interesse dos pais dela, o Rei dos céus a coloca na graça santificante e ele mesmo vai dirigindo, até que um dia a criança desperte à luz da razão e nesta hora a direção lhe é confiada. 

Se o Rei dos céus a chama para o seu reino antes disto: eis aí uma pessoa que alcançou o céu sem as obras, justamente como querem os protestantes. O avião da graça santificante nos é dado gratuitamente, porque já foi pago na cruz, o qual por sua morte redentora, mereceu para nós toda a graça que nos é necessária para a salvação.

Mas continuemos com a nossa história.

O rei dos céus dá ao homem todas as instruções necessárias para bem conduzir-se na viagem. Exigirá uma vigilância contínua, muita força de vontade para não afastar-se do roteiro e para enfrentar as tempestades que não faltarão pelo caminho. Mas não deve desanimar, porque o Rei dos céu está com ele, dando-lhe instruções durante toda a viagem ajudando-o em todo o seu percurso. Estará ao seu lado para atendê-lo com gosto, sempre que necessitar de alguma coisa. Dar-lhe-á a alimentação necessária para não desfalecer em meio da sua empresa. Mas é preciso obedecer-lhe, do contrário pode suceder um lamentável desastre. Dadas estas explicações levantam voo.

O homem, a caminho do céu, vai seguindo o seu roteiro, mas nem sempre está firme na direção. Comete algumas falhas, que fazem pequenas avarias no avião. Amedronta-se as vezes com as tempestades, mas junto dele está sempre o Rei dos céus, instruindo-o, aconselhando-o, ajudando-o, fortalecendo-o. No entanto, apesar de toda a assistência de seu guia e protetor, o homem nem sempre se porta com firmeza e perfeição desejadas. E em dada ocasião, comete uma falta grave, porque teima em desobedecer ao seu guia e zás... o avião se desarranja e despenca daquelas alturas. Só não morre o aviador, porque o Rei dos céus lhe fornece um para-quedas. Está novamente na terra e novamente sujeito à morte. Mas está unicamente por culpa sua.

Volta assim ao princípio a nossa história: o Rei dos céus o convida a subir outra vez. Tem que dar com ele algumas passadas e (maravilhosa bondade do Rei dos céus!), outro belo avião é oferecido de presente, porque já foi pago por Ele na cruz, uma vez que as riquezas de sua morte redentora são infinitas. Para encurtar a história, raros são os que fazem a viagem para o céu no primeiro avião que tomaram (a não ser as criancinhas que vão ao céu sem o uso da razão). Muitos são os que despencam de lá de cima repetidas vezes. O nosso herói, por exemplo, já perdeu a conta das vezes em que caiu e voltou para a terra.

Paremos mais uma vez para dar a explicação.

As instruções que dá o Rei dos céus para a viagem são os ensinos de sua doutrina, de sua lei que nos apontam o exato roteiro para o céu. As tempestades que aparecem no caminho são as tentações que ameaçam fazer desaparecer da alma do cristão a graça santificante. O Rei dos céus sempre ao seu lado, ajudando-o, iluminando-o, fortalecendo-o é ainda a graça atual da qual precisa o cristão constantemente, para manter-se no seu estado de união com Deus. 

O alimento que lhe dá o Rei dos céus é a Santíssima Eucaristia, sem a qual não tereis vida em vós (João VI,-54). As pequenas avarias são os pecados veniais. Mas a falha grave que provoca o lastimável desastre é o pecado mortal, que faz desaparecer em nós a graça santificante e nos torna novamente mortos pelo pecado, fora do caminho da salvação. O pára-quedas é a misericórdia divina que dá tempo e espaço ao pecador para regenerar-se, porque Deus não quer a morte do pecador, e sim, que ele se converta e viva (Ezequiel XXXIIi-11). As passadas que ele dá para conseguir novamente um meio de subir para o céu são o exame de consciência, a contrição e a confissão pelos quais recebe outra vez a graça santificante, no sacramento da penitência. 

Agora finalizemos a alegoria.

Afinal, depois de muitas vicissitudes, o Rei dos céus dá por terminada a viagem. 

Bem, - diz ao homem - Você trabalhou e se esforçou para chegar até aqui; também mostrou que confiava na minha palavra. Ora, acontece que aqui na casa de meu Pai há muitas moradas (João XIV-2). Aqui se tem que fazer justiça; Cada um receberá a sua recompensa particular segundo o seu trabalho (1° Corintios III-8). Nem todos aqui tem o mesmo grau de felicidade, da mesma forma que há diferença de estrela a estrela na claridade (1° Corintios XV-41). Você, portanto, vai ter o grau de felicidade que lhe cabe, de acordo com o tempo que passou em viagem (pois o que você passou na terra não conta) e de acordo com o grau de boa vontade, de amor, de obediência, de confiança que mostrou para comigo.

- O Senhor diz que o lugar que vou ter no céu é um prêmio pelo que fiz. Eu me acanho até de ouvir falar nisto. Que é o que fiz, em comparação com o que o Senhor fez comigo? Como eu poderia subir até aqui, se o Senhor não me desse "de graça" aquele avião que para mim tão generosamente adquiriu por tão alto preço? Como eu poderia chegar até o céu, se o Senhor não estivesse sempre ao meu lado, indicando-me o caminho, ajudando-me e confortando-me a todos os instantes? Como eu poderia sair vitorioso nesta empresa, se todas as vezes que por minha culpa fiz despedaçar-se o avião, o Senhor me protegesse com o para-quedas de sua misericórdia e não me desse, mais uma vez gratuitamente, outro avião pra subir? O meu lugar nos céus pode ser prêmio de meus esforços, como o Senhor diz com tanta bondade, porém, mais, muitíssimo mais do que isto, deve ele ser considerado um grande benefício do Senhor para comigo. 

Não é preciso mais explicar a significação do resto. É assim o prêmio do céu. (...) Compreenderam agora nossos "prezados amigos" protestantes? é por isto que S. Paulo, depois de dizer que o estipêndio, o salário, o preço do pecado é a morte, quando nós esperávamos que ele dissesse que, por sua vez, o prêmio, o estipêndio, a recompensa da virtude é a vida eterna, termina a frase de sua maneira imprevista; ele nos diz que a graça, o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Nosso Senhor Jesus Cristo: O estipêndio do pecado é a morte; mas a graça de Deus é a vida perdurável em Nosso Senhor Jesus Cristo. (Romanos VI-23). 

A vida eterna, o prêmio do céu, que está acima da nossa natureza, é uma dádiva que Deus oferece àquele que estava submerso no pecado e que passa, pela misericórdia divina, a revestir-se da graça santificante, gozando da amizade de Deus. E já é vida eterna esta graça que habita no coração do homem, mas vida eterna que precisa ainda ser mantida pela fidelidade, pela cooperação deste mesmo homem. 

Por maior que seja a nossa cooperação, se bem considerarmos toda a história da salvação de uma alma, desde o começo até o fim, em última análise o prêmio do céu é sempre um benefício de Deus, pois Ele nos ajudou em toda a altura.

O fato de dizermos que as nossas obras influem na salvação não nos impede de considerar a salvação um dom de Deus, dom que Ele misericordiosamente oferece a todos; nem tira o valor do sacrifício oferecido por Jesus Cristo na cruz, pois daí é que nos vieram os meios, que nunca teríamos de nos elevarmos acima de nós mesmos, afim de conquistar o céu. Toda a graça que os homens recebem, desde a queda de Adão até hoje, é graça de Cristo adquirida pelo seu sangue no Calvário; e por isto toda a glória dos salvos, dos santos, dos eleitos reverte em justiça e santificação e redenção (I Corintios 1-30) e sem o qual nada poderíamos fazer.

E o fato de termos que dizer, em vista do nosso nada, da nossa insuficiência: Somos uns servos inúteis (S. Lucas XVII-10) não impede a Deus de nos oferecer a sua coroa de justiça: Bem está, servo bom e fiel: já que foste fiel nas coisas pequenas, dar-te-ei a intendência das grandes; entra no gozo de teu Senhor (S. Mateus XXV-23). 
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Legítima Interpretação da Bíblia , de Lúcio Navarro.

quinta-feira, 15 de junho de 2017

Quinze minutos em companhia de Jesus Sacramentado


Meu filho, não é preciso saberes muito para muito me agradares, basta que me ames muito. Fala-me, pois, aqui, com singeleza, como falarias com o mais familiar de teus amigos, como falarias com tua mãe, como falarias com teu irmão.
Precisas de fazer em favor de alguém uma súplica qualquer?... Dize-me o seu nome, quer seja o de teus pais, quer de teus irmãos ou amigos; dize-me o que gostarias que Eu fizesse por eles... Pede muito, muito; não receie-se pedir-me, gosto muito dos corações generosos, que chegam a esquecer de certo modo as necessidades próprias para atenderem às alheias. Fala-me, assim, com simplicidade, com clareza dos pobres a quem quiseras consolar: dos doentes a quem vês padecer, dos transviados que almejas tornem ao bom caminho; dos amigos ausentes que desejarias ter outra vez perto de ti. Dize-me por todos uma palavra, ao menos; mas uma palavra de amigo, palavra de dedicação fervorosa. Lembra-te que prometi escutar a súplica que saísse do coração: e não sairá do coração o pedido que me fazeres pelas pessoas que teu coração mais especialmente ama?
E para ti não precisas de alguma graça? Faze-me se quiseres, uma lista de tuas necessidades e vem lê-la na minha presença.
Dize-me francamente que sentes orgulho, falsa delicadeza, amor à sensualidade e ao regalo; que és, talvez, egoísta, inconstante, negligente... e pede-me em seguida, que venha ajudar-te nos esforços, poucos ou muitos, que fazes para livrar-te de tais misérias.
Não te envergonhes, pobrezinho! No céu há tantos e tantos justos, tantos Santos de primeira ordem, que tiveram esses mesmos defeitos! Pediram com humildade, e ao pouco e pouco viram-se livre deles.
Também não receies pedir-me bens do corpo e de entendimento: saúde, memória, sucesso feliz em teus trabalhos, negócios ou estudos... Tudo isso posso dar-te, e o dou e desejo que me peças, enquanto se não opuser à tua santificação, senão que a favoreça e ajude.
Hoje mesmo o que precisa? Que poderia Eu fazer em teu favor? Se conhecesses os desejos que tenho de te favorecer!...
Tens entre mãos alguns projetos? Conta-me-os miudamente. Que te preocupa? De que desconfias? O que desejas? Que poderia Eu fazer por teus irmãos, por tuas irmãs, por teu amigo?? por teu superior, por teu pai, por tua mãe? que desejarias tu fazer por eles?
E por Mim, não sentes desejos da minha glória? Não gostarias de poder fazer bem a teus próximos, a teus amigos, a quem muito amas, e que vivem talvez esquecidos de Mim?Dize-me que é que hoje atrai particularmente a tua atenção, que é que mais vivamente almejas, com que meios contas consegui-lo. Dize-me se não te sucedeu bem, e Eu te direi a causa do mau sucesso. Não quererias interessar-me em teu favor?
Sou, meu filho, dono dos corações, e docemente os levo , sem prejuízo da sua liberdade, para onde me apraz.
Estás talvez triste ou de mau humor? Conta-me, conta-me, alma desconsolada, as tuas tristezas muito miudamente. Quem te feriu? Quem melindrou teu amor próprio? Quem te desprezou? Acerca-te do meu Coração, que tem bálsamo eficaz para as feridas do teu. Conta-me, e acabarás em breve por dizer-me, que à semelhança de Mim, perdoas tudo, esquece tudo, e em troca receberás a minha benfazeja bênção.
Temes, por ventura? Sentes em tua alma aquelas vãs melancolias, que embora sejam injustificadas não deixam de ser bem angustiosas? Lança-te nos braços d da minha Providência. Estou contigo, aqui, a teu lado me tens: vejo tudo, ouço tudo: nem um momento ficas desamparado.
Sentes desprezo da parte das pessoas, que antes te amavam, e vivem agora esquecidas e apartadas de ti, sem que lhes tenhas dado o menor motivo? Roga por esta tua necessidade; Eu farei que voltem a ti, se não servirem de obstáculo à tua santificação.
E não tens talvez alegria alguma a comunicar-me? Porque é que não me fazes partilhar dela, como bom amigo? Conta-me o que desde ontem desde a última visita que me fizeste, consolou e fez sorrir teu coração. Talvez tiveste agradáveis surpresas; acaso viste dissipados negros receios; talvez recebeste boas notícias, uma carta, mais um sinal de amor, venceste uma dificuldade, saíste de um perigo... Fui Eu que te procurei isso. Porque não me mostra por isso tua gratidão, e me dizes carinhosamente como um filho a seu pai: "Agradecido , meu Pai, muito agradecido". A gratidão atrai novos benefícios, porque ao benfeitor agrada ver-se correspondido.
Também não tens alguma promessa a fazer-me? Leio, bem o sabes, no fundo do teu coração; aos homens engana-se facilmente, a Deus não; fala-me, pois, com toda a lealdade. Tens firme resolução de não tornar a expor-te àquela ocasião de pecado? De privar-te daquele objeto, que fez mal à tua alma? De não ler aquele livro, que exaltou a tua imaginação? De não tratar mais com aquela pessoa, que turbou a paz do teu espírito?
Tornarás a ser brando, doce, amável e condescendente com aquele a quem, porque te melindrou, olhaste até agora como inimigo?
Agora, meu filho, volta às tuas ocupações, ao teu ofício, tua família, ao teu estudo... mas não te esqueças dos quinze minutos de agradável conversa, que tivemos, eu e tu, na solidão do santuário. Guarda, quanto puderes, silêncio, modéstia, recolhimento, resignação e caridade com o próximo. Ama a minha Mãe, que também é tua, a Santíssima Virgem...; e amanhã torna outra vez com o coração mais amoroso ainda, mais dedicado ao meu serviço; no meu acharás cada dia novo amor, novos benefícios, novas consolações.
__________
Manná do Christão, +- 1920 - pp. 163-169

Festa de Corpus Christi - Santíssimo Sacramento


A festividade do Corpo de Deus é a solene comemoração da instituição do Santíssimo Sacramento do Altar. Agradecemos e louvamos nesse dia o amor de Jesus pelo dom inefável da Eucaristia. Propriamente é a quinta-feira Santa o dia da instituição, mas a Paixão e Morte do Salvador não permite expansão de alegria.
A Santa Missa de Corpus Christi, composta pelo insigne teólogo e poeta, Santo Tomás de Aquino, é uma explicação das palavras da Sequência - Panis vivus et vitalis - Pão vivo e que dá vida. Dela fazem parte os trechos mais importantes da Sagrada Escritura sobre Eucaristia (Epístola e Evangelho). No Introito agradecemos pelo alimento do Céu, a Eucaristia. Ela é para nós "flor de trigo" e "mel do rochedo", isto é, o Cristo, a lembrança de sua Paixão e de seu Amor (Oração). Celebrando a Santa Missa*, anunciamos a Morte de Cristo. E sob este aspecto, a Eucaristia é um verdadeiro sacrifício (Epístola) e alimento sobrenatural (Gradual, Evangelho), símbolo da união e paz entre os fiéis (Secreta), e penhor da união com Deus (Communio): "Omnes in Christo unum", "Todos somos um só (Corpo Místico) em Jesus Cristo".

*Para esses tempos em que as Santas Missas são escassas, quem não pode participar realiza a solenidade em sua casa, sobre o seu altar particular, com piedade e devoção. Após as leituras completas, fazer a comunhão espiritual e orações para o Santíssimo Sacramento. Não esquecendo do principal que é rezar o Santo Rosário.

INTROITO: CIBAVIT EOS (Sl. 80, 17 - ib.2)

O Senhor os alimentou como flor de trigo, aleluia; e fartou-os com mel de rochedo, aleluia, aleluia, aleluia. Sl. Exultai em Deus, nosso auxílio; glorificai ao Deus de Jacó. V. Glória ao Pai.

Oração
Ó Deus, que neste admirável Sacramento nos deixastes um memorial de vossa Paixão, concedei, Vos pedimos, que de tal sorte veneremos os sagrados Mistérios de vosso Corpo e de vosso Sangue que sempre sintamos em nós o fruto de vossa Redenção. Vós que, sendo Deus, viveis e reinais.

Epístola (1 Cor. 11, 23-29)
Irmãos: Do Senhor eu recebi o que também vos ensinei: que o Senhor Jesus, na noite em que foi entregue, tomou o pão e, dando graças, partiu-o e disse: Tomai e comei: Isto é o meu Corpo que será entregue por vós; fazei isto em memória de mim. Igualmente, depois de haver ceado, tomou o cálice, dizendo: Este cálice é o novo Testamento em meu Sangue, fazei isso todas as vezes que o beberdes em memória de mim. Porque todas as vezes que comerdes este Pão e beberdes este cálice, anunciareis a Morte do Senhor, até que Ele venha. Portanto, todo aquele que comer este Pão, e beber este cálice do Senhor indignamente, será réu do Corpo e Sangue do Senhor. Examine-se, pois, a si mesmo o homem, e assim coma deste pão e beba deste cálice. Porque o que come e bebe indignamente, come e bebe para si a condenação, não distinguindo [de outra comida], o Corpo do Senhor.

Gradual (Sl. 144, 15-16)
Os olhos de todos em Vós esperam, Senhor, e Vós lhe dais o alimento a seu tempo. V. Abris a vossa mão e encheis de bênçãos tudo o que tem vida.

Aleluia, aleluia. V. Minha Carne é verdadeiramente comida, e meu Sangue é verdadeiramente bebida; quem come a minha Carne e bebe o meu Sangue, permanece em mim e eu nele.

Sequência

Lauda Sion*


Louva Sião, o Salvador, louva o guia e pastor com hinos e cânticos.
Tanto quanto possas, ouses tu louvá-lo, porque está acima de todo o louvor e nunca o louvarás condignamente.
É-nos hoje proposto um tema especial de louvor: o pão vivo que dá a vida.
É Ele que na mesa da sagrada ceia foi distribuído aos doze, como na verdade o cremos.
Seja o louvor pleno, retumbante, que ele seja alegre e cheio de brilhante júbilo da alma.
Porque celebramos o dia solene que nos recorda a instituição deste banquete.
Na mesa do novo Rei, a páscoa da nova lei põe fim à páscoa antiga.
O rito novo rejeita o velho, a realidade dissipa as sombras como o dia dissipa a noite.
O que o Senhor fez na Ceia, nos mandou fazê-lo em memória sua.
E nós, instruídos por suas ordens sagradas, consagramos o pão e o vinho em hóstia de salvação.
É dogma de fé para os cristãos que o pão se converte na carne e o vinho no sangue do Salvador.
O que não compreende nem vês, uma Fé vigorosa te assegura, elevando-te acima da ordem natural.
Debaixo de espécies diferentes, aparências e não realidades, ocultam-se realidades sublimes.
A carne é alimento e o sangue é bebida; todavia debaixo de cada uma das espécies Cristo está totalmente.
E quem o recebe não o parte nem divide, mas recebe-o todo inteiro.
Quer o recebam mil, quer um só, todos recebem o mesmo, nem recebendo-o podem consumi-lo.
Recebem-no os bons e os maus igualmente, todos recebem o mesmo, porém com efeitos diversos: os bons para a vida e os maus para a morte.
Morte para os maus e vida para os bons: vede como são diferentes os efeitos que produz o mesmo alimento.
Quando a hóstia é dividida não vaciles, mas recorda que o Senhor encontra-se todo debaixo do fragmento, quanto na hóstia inteira.
Nenhuma divisão pode violar as substâncias: apenas os sinais do pão, que vês com os olhos da carne, foram divididos! Nem o estado, nem as dimensões do Corpo de Cristo são alteradas.
Eis o pão dos Anjos que se torna alimento dos peregrinos: verdadeiramente é o pão dos filhos de Deus que não deve ser lançado aos cães.
As figuras o simbolizam: é Isaac que se imola, o cordeiro que se destina à Páscoa, o maná dado a nossos pais.
Bom Pastor, pão verdadeiro, de nós tende piedade. Sustentai-nos, defendei-nos, fazei-nos na terra dos vivos contemplar o Bem supremo.
Ó Vós que tudo o sabeis e tudo o podeis, que nos alimentais nesta vida mortal, admiti-nos no Céu, à vossa mesa e fazei-nos co-herdeiros na companhia dos que habitam a cidade santa.
Amém. Aleluia.

Evangelho (S. João 6,56-59)
Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele. Assim como o Pai que me enviou vive, e eu vivo pelo Pai, assim também aquele que comer a minha carne viverá por mim. Este é o pão que desceu do céu. Não como o maná que vossos pais comeram e morreram. Quem come deste pão viverá eternamente. Tal foi o ensinamento de Jesus na sinagoga de Cafarnaum. - Credo

Ofertório (Levit. 21, 6)
Os sacerdotes do Senhor oferecem a Deus incenso e pães; eis porque devem ser santos diante de Deus e não profanarão o seu Nome, aleluia.

Secreta
Senhor, Vos suplicamos, concedei, benignamente, à vossa Igreja os dons da união e da paz, que misticamente estão representados nestas oferenda. Por N. S.

Communio (1 Cor. 11, 26-27)
Todas as vezes que comerdes deste pão e beberdes do cálice, anunciareis a morte do Senhor, até que Ele venha. Portanto, todo aquele que indignamente comer o pão ou beber o cálice do Senhor, será réu do Corpo e do Sangue do Senhor, aleluia.

Postcommunio
Fazei, Senhor, Vos Suplicamos, que cheguemos ao gozo eterno de vossa Divindade, prefigurado neste mundo pela recepção temporal de vosso Corpo e vosso Sangue preciosíssimo. Vós que, sendo Deus, viveis e reinais.

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Missal Quotidiano - Dom Beda - 1959
*Laudo Sion não é o que contém no Missal. Este foi copiado do site do Arautos do Evangelho.
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A Tradição é linda.

A Tradição é linda.

Palavras de Santo Agostinho

"A oração é uma chave do céu; sobem as preces, desce a divina misericórdia. Por mais baixa que seja a Terra, e alto o Céu, Deus ouve a língua do homem, quando este tem limpa a consciência."

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